Arquivo de novembro, 2011

Oscar Wilde poderia ter morrido de amor

quarta-feira, 30 novembro 2011

Há exatamente um ano atrás, postamos aqui neste blog o obituário de Oscar Wilde publicado no The New York Times em 01 de dezembro de 1900. O anúncio de falecimento comunicava que o escritor havia morrido às três da tarde do dia 30 de novembro e que teria vivido os últimos meses sob o nome de Manmoth. O texto dizia ainda que Lord Alfred Douglas estava com ele quando morreu. E que, apesar da causa morte ser meningite, havia a possibilidade do escritor ter cometido suicídio. Segundo seus biógrafos, no entanto, ambas as afirmações parecem não proceder. Nem seu antigo amante estava com ele e nem Wilde teria atentado contra a própria vida.

Nascido em Dublin no ano de 1854, o autor de O retrato de Dorian Gray viu sua vida mudar ao ser  acusado e processado pela família de “Bosie”, como era chamado Lord Alfred Douglas, o jovem aristocrata por quem Wilde se apaixonou. Condenado a trabalhos forçados que consumiram sua saúde e sua reputação, Oscar Wilde exilou-se em Paris e acabou seus dias pobre e no anonimato.

Oscar Wilde e Bosie Douglas

“Em 30 de novembro de 1900, o genial e extravagante Oscar Wilde, um dos maiores escritores do século XIX, senão de toda a história da literatura, morreu, aos 46 anos, em meio aos piores sofrimentos, ao anonimato total e à miséria mais absoluta, num quartinho decrépito e gelado de um sórdido hotel parisiense” conta Daniel Salvatore Schiffer em Wilde, da Série Biografias L&PM. O livro também revela que o último contato que Wilde teve com Bosie veio por carta em 12 de novembro: “Terrivelmente angustiado, porém sem mais nenhuma ligação com a realidade por conta da febre que começava a se apoderar dele, Oscar só conseguia falar, num início de delírio de suas enormes dívidas. Depois, de repente, enquanto Wilde se agitava cada vez mais, Dupoirier irrompeu o quarto. Trazia uma carta. Era um bilhete de Bosie, espantosamente afetuoso, ao qual anexara, depois que Ross lhe informou sobre a misérie na qual vivia seu antigo amante, um cheque de dez libras. Comovido pelo gesto, Wilde deixou algumas lágrimas rolarem.”

A história de amor entre Oscar Wilde e Bosie está contada no filme “Wilde”, de 1997. No papel do escritor está Stephen Fry e como seu jovem amante, Judie Law. Vale ver o trailer:

Google homenageia Mark Twain

quarta-feira, 30 novembro 2011

É sempre uma bela surpresa abrir o Google e ver uma ilustração ou animação divertida feita para homenagear alguém ou lembrar um acontecimento importante. Quem acessa o buscador com frequência deve ter visto as homenagens  que foram feitas a Julio Verne, Agatha Christie, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e outros tantos escritores.

Hoje é a vez de Mark Twain! Uma ilustração com seus personagens mais famosos apareceu hoje na home do buscador.

(clique para ampliar)

Mark Twain nasceu no dia 30 de novembro de 1835, há exatos 176 anos. Sobre seu romance mais famoso, As aventuras de Huckleberry Finn, o Nobel de literatura Ernest Hemingway escreveu:

“Toda a literatura americana moderna se origina de um livro escrito por Mark Twain, chamado Huckleberry Finn (…). Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então.”

Quer tirar a prova da genialidade de Mark Twain? Na Coleção L&PM Pocket você encontra As aventuras de Huckleberry Finn, O príncipe e o mendigo e As aventuras de Tom Sawyer.

56. Estreia de luxo com o personagem do lixo. E com prefácio do grande Erico

terça-feira, 29 novembro 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

Ontem foi o dia em que morreu Erico Verissimo, no longínquo ano de 1975. De certa forma, este que é um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos está ligado ao nosso destino. Erico era muito amigo do Mario de Almeida Lima, pai do Paulo Lima, o “L” da L&PM.  Para orientação do leitor, vou fazer uma pequena rememoração; o Lima e eu vínhamos de uma desastrada experiência comercial com uma agência de publicidade, na qual éramos sócios do grande desenhista brasileiro Edgar Vasques. Na época, 1974, o Edgar fazia grande sucesso na mídia com seu personagem Rango, que era publicado em tiras diárias na Folha da Manhã. Muito crítico contra o governo, paradoxalmente, o Rango era publicado num jornal conservador. E só por isso os militares ainda não tinham acabado com ele. Ao colocarmos um ponto final na nossa Ciclo Cinco Propaganda, sentamos numa churrascaria em Porto Alegre, o Edgar, o Lima e eu, e ficamos assuntando sobre o que faríamos da vida dali em diante. Eu e o Edgar estudávamos Arquitetura e o Lima, Administração. Vivíamos os tumultuados anos 70. A ditadura na ofensiva. Intimidava e reprimia os estudantes que eram os grandes responsáveis por uma enorme onda de protestos que havia tomado conta do país. Decidimos então fazer uma editora e publicar o Rango. Pra incomodar os “milicos” como eram chamados,  pejorativamente, os militares que espancavam e torturavam aqueles que discordavam da ditadura. Reunimos as tiras e publicamos o Rango 1, cuja história já contei num post bem no comecinho destas publicações.

Mas voltando ao ponto; o Erico era amigo do Mario de Almeida Lima. Nós íamos publicar o Rango. Pedimos ao Mario Lima que fizesse uma “embaixada” junto a ele,  para que escrevesse o prefácio do livro de estreia da L&PM Editores. A contragosto, o “velho” Lima foi ao Erico e disse: “estes malucos querem fazer uma editora e querem que tu faças o prefácio do primeiro livro”.

Para os que não conheceram Erico Verissimo: guardo dele a imagem de um homem afável e extremamente generoso. Éramos muito, muito jovens e ele, o grande escritor, nos levava a sério, como se fossemos adultos experientes. Cada ida à sua casa, era uma ou duas horas da melhor conversa. Convocado pelo amigo, Erico pediu os originais e uma semana para fazer o prefácio. E não poderia ter sido melhor. Veja o fac-simile da página ofício onde ele escreveu um elogio definitivo ao nosso primeiro livro. Ele foi sincero, pois gostava do Rango e generoso ao extremo por topar a empreitada de fazer o prefácio do livro que fundou esta editora.

A edição em pocket de Rango 1, mais recente, mantém o prefácio de Erico

Foi graças a este prefácio que eu me salvei das garras da polícia da ditadura, quando fui “convidado” a prestar esclarecimentos no sinistro prédio da Polícia Federal em Porto Alegre. Era um edifício que, uma vez lá dentro, ninguém tinha certeza de que sairia.

O chefe da Polícia Federal de Porto Alegre, um pobre diabo com muito poder, em pessoa, depois de um longo chá de banco, me recebeu com o Rango aberto na sua frente. Ele não levantou a cabeça. Folheava lentamente o livro e fazia comentários tipo “olha aqui, piada com coronel… não é possível uma coisa destas”. Mais adiante, “estes comunistinhas usam até a bandeira do Brasil para fazer sacanagem…”. E eu ali, nem me mexia. Até que ele finalmente me olhou e disse: “isto aqui é uma revistinha e revista tem que ter um registro no departamento de censura. Onde está o registro?”. Eu gaguejei; “mas isto não é revista, é livro!”. “Como não é revista?” berrou o gorila, isto aqui é uma revistinha de quadrinhos e uma revistinha muito vagabunda!”. Aí eu tive uma iluminação. Procurei a voz mais firme que eu conseguiria para o momento e disse: “É livro sim! Olha o prefácio do Erico Verissimo”. Quis Deus, na sua infinita bondade, que o prefácio do Erico começasse assim: “Recomendo este livro com o maior entusiasmo…”. O troglodita leu, me olhou, abanou a cabeça desolado e por fim disse delicadamente: “Te manda daqui seu comunistinha, mas abre o teu olho…”

*Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o quinquagésimo sexto post da Série “Era uma vez… uma editora“.

Quem dá mais?

terça-feira, 29 novembro 2011

Quanto vale uma assinatura? A resposta, claro, depende de quem assinou. Mas dando uma olhadinha no catálogo do leilão que a famosa Sotheby´s promoverá no dia 13 de dezembro às 10 da manhã em Nova York, já para ter uma ideia. Batizado de “Fine Books and Manuscripts”, o leilão oferece um catálogo com 352 itens. Demos uma boa pesquisada nele e fizemos a nossa seleção de desejos.

Uma carta em alemão que traz a assinatura “Kafka”, provavelmente de 1920 e endereçada ao poeta Albert Ehrenstein. Estima-se que sairá por um preço que pode variar entre 12.000 e 18.000 dólares.

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Se pudéssemos, levaríamos esta edição de “The Big Sleep” (que publicamos na Coleção L&PM Pocket) de 1939 só porque ela traz uma dedicatória dupla na folha de rosto. As assinaturas de Raymond Chandler fazem o livro valer a “bagatela” de 80.000 a 120.000 dólares.

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Já que em 2012 vamos lançar mais quatro publicações com o nome de Andy Warhol, não seria nada mal arrecadar estas 18 litogravuras assinadas por ele, com desenhos fofos de gatos com o nome de “Sam”. Provavelmente sairão por um preço que vai variar entre 25.000 e 35.000 dólares.

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Pra combinar com um dos nossos livros da Série Encyclopaedia, “Lincoln”, não seria má ideia adquirir pelo menos um dos cheques que levam a assinatura do presidente americano. Este aqui, por exemplo, de 6 dólares, hoje está estimado em um valor que varia entre 5.000 e 7.000 dólares.

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Gostou? Veja aqui o catálogo completo. Se você for do tipo que “está podendo”, é possível dar lances pela internet.

Erico Verissimo recomenda Edgar Vasques

segunda-feira, 28 novembro 2011

O autor de O tempo e o vento escreveu o prefácio do primeiro livro publicado pela L&PM lá em 1974, quando a editora foi criada. Erico morreu pouco tempo depois, em 28 de novembro de 1975, há exatos 36 anos, e para homenageá-lo, recuperamos o fac-símile do texto batido à máquina e corrigido à mão pelo próprio Erico.

“Recomendo este livro com o maior entusiasmo”, diz ele sobre as tirinhas do Rango, personagem criado por Edgar Vasques. Leia você mesmo:

(clique para ampliar e ler melhor)

 

130 anos de Stefan Zweig, o criador da expressão “Brasil, um país do futuro”

segunda-feira, 28 novembro 2011

Há exatamente 130 anos atrás, em 28 de novembro de 1881, nascia Stefan Zweig. Vienense, herdeiro de uma família da alta burguesia austríaca, sua trajetória se cruzaria com a do Brasil em 1936 quando, ao ser convidado para um congresso em Buenos Aires, o já famoso escritor Zweig aproveitou para visitar também o Brasil. Chegou esperando encontrar “uma daquelas repúblicas sul-americanas que não distinguimos bem umas das outras, com clima quente e insalubre, situação política instável e finanças em desordem…”, como depois escreveria. Mas ao desembarcar no Rio de Janeiro, a sensação foi outra: “Fiquei fascinado e, ao mesmo tempo, estremeci. Pois não apenas me defrontei com uma das paisagens mais belas do mundo, esta combinação ímpar de mar e montanha, cidade e natureza tropical, mas ainda com um tipo completamente diferente de civilização”. A partir de então, Zweig envolveu-se tão intensamente com o Brasil que, em 1941, junto com a mulher, mudou-se para Petrópolis, virou biógrafo de Américo Vespúcio e escreveu o apaixonado ensaio histórico Brasil, um país do futuro.

O pequeno Zweig no colo de seu pai

Foi em Petrópolis que, em 1942, o escritor e sua mulher foram encontrados abraçados e sem vida. Desiludidos com a II Guerra, eles se suicidaram ingerindo uma quantidade elevada de barbitúricos.

Além de seus livros mais conhecidos, entre eles Medo e outras histórias e 24 horas na vida de uma mulher (Coleção L&PM Pocket), Zweig deixou um legado que inclui traduções, ficções, teatro, poemas e ensaios biográficos de gente como Paul Verlaine, Rimbaud, Romain Rolland, Freud, Casanova, Stendhal, Tolstói e Maria Antonieta.

Brasil do futuro do passado: Stefan Zweig ao lado de Getúlio Vargas

A ovelha negra da Turma da Mônica

segunda-feira, 28 novembro 2011

Ele surgiu em janeiro de 1966 e, segundo consta, foi uma encomenda de Mino Carta – então editor do Jornal da Tarde – a Mauricio de Sousa. A ideia era criar tiras sem texto de um personagem que fosse politicamente incorreto e menos infantil. Assim nasceu Nico Demo, um garoto de nome sugestivo e cabelos em forma de chifres. Segundo o próprio Mauricio, Nico Demo era “aquele amigo que quer ajudar e acaba provocando as maiores confusões com suas tentativas”, um garoto cujas ações são aparentemente bem-intencionadas, mas com resultados desastrosos. No final, fica a dúvida: será que ele não fez mesmo de propósito?

Vestido com terno e gravata borboleta, Nico Demo apresentava um tipo de humor negro pouco usual na época, o lado absurdo e cruel da vida. Seus traços eram diferentes dos outros personagens de Mauricio, levemente serrilhados, provavelmente para deixar ainda mais claro que ele não andava na linha. 

Chocadas com o humor negro de Nico Demo, logo as pessoas começaram a mandar cartas para o Jornal da Tarde. Pressionado para que as maldades de seu personagem fossem suavizadas, Mauricio preferiu parar com as tiras. O criador diria que sua criatura veio antes do tempo, que as pessoas não estavam preparadas para ela.

Cultuado entre os fãs do politicamente incorreto, Nico Demo agora volta à ativa na Série Quadrinhos da Coleção L&PM Pocket. Uma oportunidade única para resgatar sua história e se divertir com suas travessuras.

Nem Charlie Brown escapou das diabruras de Nico Demo (Clique para ampliar)

A intenção sempre parecia boa, mas no final... (Clique para ampliar)

Verbete de hoje: Gilbert Shelton

domingo, 27 novembro 2011

Com o lançamento da nova Enciclopédia dos Quadrinhos“, de Goida e André Kleinert, o Blog L&PM publicará, nos domingos, um verbete do livro. O verbete de hoje é Gilbert Shelton (1940)

Ao lado de Robert Crumb (veja em C), Gilbert Shelton é o mais popular desenhista dos quadrinhos do underground norte-americano. Seus Freak Brothers (Fat Freddy, Phineas e Franklin) são os reis da confusão de sexo, drogas, ócio, bagunça, birita, festas e rock’n’roll. Shelton, agora estabelecido na Califórnia, nasceu em Dallas, Texas. Ao contrário

de seus anti-heróis, trabalhou duro seis horas por dia na sua Rip Off Press, produzindo histórias cada vez melhores. Começou a carreira no Texas Ranger, publicação subterrânea da Universidade do Texas. Seu primeiro personagem de sucesso, Wonder Hart-Hog, o suíno de aço, era um porco machista, reacionário, repressor e chauvinista. A figura se tornou best seller da revista Help, lançada em 1965 por Harvey Kurtzman (veja em K). A consagração de Shelton aconteceu, porém, com o lançamento dos Freak Brothers em 1967, numa revistinha comix Austin Rag. Em 1968, Shelton mudou-se para a Califórnia onde, depois de algum tempo, junto com amigos, fundou a Rip Off Press. The Freak Brothers é o veículo através do qual Shelton ironiza e denuncia o ilusório “sonho norte-americano”. Também não perdoa os seus anti-heróis, colocando-os como ridículas figuras de uma sociedade marcada pelo moralismo de

fachada e um reacionarismo selvagem. As histórias dos Freak Brothers são geralmente acompanhadas pelas aventuras do Gato do Fat Freddy, deliciosas e irreverentes também. No Brasil, The Freak Brothers apareceram pela primeira vez em 1972, na revista Grilo, e posteriormente ganharam álbuns pela coleção “Quadrinhos L&PM”. Saíram dois volumes com as aventuras dos Freak Brothers e um com o Gato do Fat Freddy. A Conrad também lançou dois álbuns (2004 e 2005) com os personagens.

Ovos são vilões?

sábado, 26 novembro 2011

Nos sábados, este blog publica algumas das dúvidas que são esclarecidas em “Fatos & Mitos sobre sua alimentação“, o novo livro do Dr. Fernando Lucchese. O Dr. Lucchese é autor também do bestseller Pílulas para viver melhor, entre outros livros.

Ovos são vilões?

É verdade que os ovos têm muito colesterol, acima de 200 mg, que é mais do que dois terços do limite recomendado pela American Heart Association, que é de 300 mg por dia. Mas esse colesterol não é tão perigoso assim como se pensava. Apenas parte do colesterol dos alimentos chega à corrente sanguínea e, se de colesterol aumenta, o corpo compensa, produzindo menos colesterol. Portanto, se você não exagerar e comer um por dia, não qualquer perigo. Na verdade, os ovos são uma excelente fonte de proteínas e contêm gordura insaturada, o Ômega-3, uma gordura saudável. Porém, se você tem colesterol alto, procure evitar excessos. Seu colesterol aumentará ainda mais. Então, pode-se dizer que os ovos estão absolvidos? Talvez nunca devessem ter sido condenados. Foi uma condenação injusta.

“Guernica” por Carlos Saura

sexta-feira, 25 novembro 2011

Guernica é preto, (…) como as manchetes dos jornais da época que dizem ao homem da rua, preto no branco, sua terrível verdade. É preto, cinza e branco como os filmes de atualidades e as fotos do front de Biscaia (…), de trama tão contrastada que ferem o olhar antes mesmo que se tenha identificado a imagem.

A composição, muito plástica, ordenada, harmoniosa, é forte, monumental, como convinha a uma decoração mural numa tal circunstância. É claramente figurativa, violentamente expressiva, com uma intensidade dramática que vai além do fato da atualidade, mostrando o que há nele de universal e de atemporal. A cidade é apenas simbolizada numa arquitetura elementar de fundo de cenário. Nada mostra uma Guernica real. Não se vêem aviões, nem bombas. A única arma é uma espada quebrada, na mão de um homem caído no chão em primeiro plano, de olho ainda aberto. À esquerda, uma mãe segura um filho morto (a julgar pela maneira como sua cabeça cai pra trás), berra de dor diante de um touro majestoso, tranquilo. Do outro lado, o duplo dessa mãe ergue os braços ao céu. Diante dela, uma terceira mulher, parcialmente ajoelhada, de rosto menos atormentado, estende-se em direção à dupla luz de uma lâmpada elétrica no teto e de uma lamparina nas mãos de uma quarta figura feminina, da qual somente aparece a cabeça, enorme. No centro, um cavalo parte em direção ao fundo do quadro e se volta, relinchando. Muitos serão os que tentarão decifrar esse conjunto de sinais, como se cada um devesse receber uma significação precisa; mas Picasso se contentará sempre em dizer que o cavalo é um cavalo, o touro é um touro, e que a força e a riqueza dos símbolos é que se pode interpretá-los amplamente.

O texto acima é uma releitura da Guernica, de Pablo Picasso, feita pelo biógrafo Gilles Plazy para a Série Biografias. Um dos quadros mais célebres do pintor espanhol também já ganhou diversas versões em murais e telas mundo afora e até em 3D. E agora chegou a vez do cinema se apropriar de uma das obras mais emblemáticas da história ocidental moderna.

Carlos Saura (o mesmo diretor de “Carmen” e “Tango”) está preparando um longa de ficção chamado “33 dias”, em referência ao tempo que Picasso levou para pintar a Guernica. Em entrevista ao jornal O Globo, o diretor disse que pretende “mostrar como o governo espanhol, em plena Guerra Civil, encomendou a Picasso um quadro de 8 m x 4 m para o pavilhão da Espanha na Feira Internacional de Paris, em 1937, para o qual colaboraram artistas como Miró, Dalí, Calder, Henry Moore e Luis Buñuel”. Em abril daquele mesmo ano, a cidade de Guernica, na Espanha, foi bombardeada por aviões italianos e alemães. Aquele foi um ensaio para os extermínios de civis realizados ao longo da Segunda Guerra Mundial e a fonte maior de “inspiração” para Picasso.

Saura quer retratar também aspectos da vida afetiva de Picasso que, segundo ele, se confundem com o processo de criação da Guernica. Dora Maar, pintora e fotógrafa francesa, amante de Picasso, registrou dia a dia a evolução do quadro. “As fotos feitas por Dora estão no Reina Sofía, assim como os esboços usados por Picasso para fazer uma pintura que pode ser encarada como um dos testemunhos mais impressionantes da inutilidade da guerra”, diz.

Saura ainda não definiu quem será o ator que interpretará Picasso no filme e, por enquanto, se ocupa com a escolha das locações na Espanha e em Paris. O filme “33 dias” ainda não tem data de estreia, mas é certo que sai em 2012, ano em que o diretor espanhol completa 80 anos de vida e 55 anos de carreira.