Arquivo de março, 2011

Os registros “esgotados” da ditadura

quinta-feira, 31 março 2011

Há exatos 47 anos, tropas de Minas Gerais e de São Paulo saíram às ruas. Era 31 de março de 1964. Dias antes, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, organizada pelos setores conservadores da sociedade, pedia o afastamento do então presidente João Goulart, que sucumbiu à pressão política e social e refugiou-se no Uruguai. No mesmo dia os militares tomaram o poder, e a ditadura brasileira que duraria 20 anos dava o primeiro passo.

A L&PM Editores foi criada neste período, em 1974. E vamos combinar: fazer livros não era uma atividade bem vista pelo regime… Apesar disso, a produção intelectual era intensa e diversas obras célebres foram publicadas nesta época, como o livro 1964: Golpe ou Contragolpe, de Hélio Silva, que narra em detalhes os acontecimentos políticos e sociais do dia 31 de março de 1964. Um registro precioso em páginas já amareladas, que já não se encontra nas livrarias. Recuperamos este trecho do nosso arquivo e compartilhamos aqui:

Outra saída encontrada para resistir ao regime foi o humor. E nisso, Millôr Fernandes foi mestre e o é até hoje. A peça Bons tempos, hein?! (cujo livro também está fora de circulação há algum tempo), publicada pela L&PM em 1979, faz um resumo dos últimos 15 anos, começando pelo fatídico 1964:

As tirinhas antológicas do Rango, personagem criado pelo cartunista Edgar Vasques em 1970, foram publicadas pela L&PM em sete volumes, entre 1974 e 1981 (todos esgotados). Recuperamos algumas páginas do volume 1 para compartilhar aqui com vocês:

Em 2005, quando completou 35 anos, Rango ganhou uma edição comemorativa em versão pocket. Esta sim pode ser encontrada nas livrarias :)

Dois dias em 31 de março

quinta-feira, 31 março 2011

Dois fatos me marcaram neste dia.

O primeiro. 31 de março de 1964. Eu tinha 11 anos. Meio-dia. Como todos os dias, eu e meu irmão esperávamos meu pai vir nos buscar no Colégio de Aplicação, na Avenida Oswaldo Aranha em Porto Alegre. Como sempre, corremos rumo ao Aero Willys bordeau e branco que aproximava-se lentamente. Mas quem dirigia era um tio nosso. “Cadê o pai?”, perguntamos. “Ele foi preso”, disse secamente meu tio. Logo adiante, a rua José Bonifácio, onde ficava (e ainda fica) o Colégio Militar, estava interditada. Os tanques começavam a invadir as ruas.

O outro, aconteceu exatamente 22 anos depois. A Ditadura já tinha terminado. Eu me lembro do médico entrando no quarto e dizendo: “a sua filha nasceu e passa muito bem”. (Ivan Pinheiro Machado)

A Torre Eiffel está pronta

quinta-feira, 31 março 2011

Foram 785 dias de trabalho até que, em 31 de março de 1889, a Torre Eiffel estava finalmente pronta. Construída para a Exposição Universal que comemorava os cem anos da Revolução Francesa, ela causaria impacto não apenas em Paris, como no mundo inteiro. Hoje, não há quem desconheça seu desenho, quem não saiba, mesmo sem nunca ter ido à Cidade Luz, como são suas formas. Os turistas a visitam com fome de fotos e suas miniaturas são vendidas aos milhares na formato de chaveiros e souvenirs em geral. Abaixo, algumas breves passagens de “Paris – biografia de uma cidade”, premiado livro de Colin Jones que traz ótimos textos sobre essa que é um dos maiores símbolos arquitetônico da era moderna.

“A torre transcendia os cânones artísticos; transcendia também quaisquer noções de função prática. No final, foram encontradas utilizações para ela: um transmissor de telegrafia foi erguido em 1908, e em seguida outro para a televisão; o topo servia também de posto de observação militar. Também tem sido usada como grande outdoor publicitário e como estação metereológica. Mas todos esses fins mundanos poderiam ter sido atingidos de outras maneiras. Para todos os efeitos, a torre é de uma inutilidade sublime.”

“Ponto turístico por excelência, a torre transcende também noções triviais de turismo. Como obervou Roland Barthes, o mais perspicaz comentarista da torre: não há um lado interno no qual o turista entra; de fato, a torre não tem conteúdo. De certo modo não há nada para se ver na torre – a não ser Paris. O local que dá o panorama mais abrangente da cidade é igualmente presença inevitável no horizonte em todas as partes de Paris. Não é de se admirar que Guy de Maupassant comesse no restaurante da torre: ali era, afirmava ele, ‘o único lugar em Paris em que a pessoa não a enxergava!´”

“O desafio da torre estimulou desafios mais idiossincráticos. Pessoas tentaram voar pelo meio dos pilares (1926, com insucesso; 1945); saltar de para-quedas (1912); descer de bicicleta (1923); subir correndo a pé (1905); subir usando técnicas de montanhismo (em vez de subir pelos elevadores; 1954), de motocicleta (1983) e de mountain bike (1987); e assim por diante.”

A Torre Eiffel no dia em que ficou pronta: 31 de março de 1889 / © Louis-Emile Durandelle

Além de Paris – Biografia de uma cidade, a L&PM publica Nos céus de Paris, de Alcy Cheuiche, Paris: uma história, na Série Encyclopaedia e Satori em Paris, de Jack Kerouac.

30 de março de 1853, nasce um gênio

quarta-feira, 30 março 2011

Vincent Van Gogh aos 13 anos

“Desde o seu nascimento, Vincent Willem Van Gogh viveu em dificuldade. Nasceu em 30 de março de 1853, exatamente um ano após uma criança natimorta chamada, como ele, Vincent Willem Van Gogh.”

Assim começa Van Gogh, premiado livro de David Haziot que faz parte da Série Biografias. O gênio atormentado, o pintor fervoroso, o observador louco, o desenhista libertário, o artista sem igual que usou o próprio corpo como a matéria-prima de sua arte. Há exatamente 158 anos, na cidade holandesa de Groot Zundert, Van Gogh nasceu para brilhar, mas isso só aconteceria depois de sua morte.

Valorizados e populares, os girassóis, os céus e as dezenas de auto-retratos de Van Gogh são mais do que conhecidos no mundo inteiro. São usados em cartazes de filmes como o que Woody Allen vai lançar este ano ou em campanhas de marketing como a que a Onward Kashiyama, fabricante japonesa de camisas, realizou em 2010. A empresa utilizou 2070 camisas pólos de 24 cores diferentes para criar um mosaico que reproduzia um dos auto-retratos de Van Gogh. O resultado ficou em exposição em um edifício próximo à estação central de Tóquio.

Sobre Van Gogh, a L&PM publica, além de sua biografia, o livro Cartas a Théo, com a correspondência entre o pintor e seu irmão.

Novo filme de Woody Allen estreia em junho

terça-feira, 29 março 2011

A revista francesa Première divulgou hoje novas imagens do filme Midnight in Paris, de Woody Allen, que vai abrir o Festival de Cannes em maio e tem estreia no Brasil prevista para junho. Quem também faz sua estreia no cinema é a primeira-dama da França, Carla Bruni-Sarkozy, no papel de guia turística do Museu Rodin, em Paris.

Carla Bruni e Woody Allen nas filmagens de "Midnight in Paris"

Sempre cheio de referências e intertextualidades, Woody Allen não faz diferente em Midnight in Paris. No cartaz do filme, divulgado na semana passada, o cenário da Cidade-Luz se mistura à tela Noite estrelada, de Vincent Van Gogh.

Enquanto espera o filme estrear no Brasil, vá preparando o humor e dê boas boas risadas com os livros de Woody Allen publicados pela L&PM e veja o trailer:

21. Nós e o SNI (Serviço Nacional de Informações)

terça-feira, 29 março 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

O Luis Claúdio Cunha, combativo jornalista e autor do clássico “Operação condor: o sequestro dos uruguaios” (L&PM, 2009) me alertou no ano passado (2010) que a Casa Civil da Presidência da República estava disponibilizando, para qualquer cidadão brasileiro, sua ficha (se houvesse) junto aos órgãos de segurança durante o período da Ditadura Militar (1964-1985). Embora eu jamais tenha me considerado um perigoso subversivo, por curiosidade, solicitei formalmente ao Gabinete da Presidência da República a minha “folha corrida” nos órgãos de segurança e repressão da ditadura militar..

Sinceramente, achava que receberia uma resposta tipo “nada consta”. Eis que, poucos dias depois, aterrissou na minha mesa um envelope pardo enviado por Sedex, cujo remetente era “Casa Civil da Presidência da República”, com brasão e tudo. Abri o envelope. Havia termos de responsabilidade, confidencialidade, etc, e um aviso dizendo que aquilo era um resumo de cada registro em meu nome, junto ao Serviço Nacional de Informações (SNI), no período entre 1974 e 1985. Caso eu desejasse as informações detalhadas, teria de fazer nova solicitação. As informações resumidas, com o número de cada “ocorrência”, compreendiam umas dez páginas, com mais de 30 registros. Muitas delas me ligavam ao meu pai e ao Paulo Lima, meu sócio até hoje, e ao jornalista Mario Lima, pai do Paulo, todos nós descritos como perigosos subversivos. Registravam os livros ditos “perigosos para o regime” que lançávamos e incluía como fato altamente subversivo, uma jornalzinho de humor, o “Risco”, que editávamos no início da década de 80. Há registros tais como “Ivan Gomes Pinheiro Machado chegou em Frankfurt, Alemanha, em 14 de outubro de 1976. Em 18 de outubro já estava em Londres, Inglaterra, hospedado na casa de Douglas Aguiar… Em seguida foi para Lisboa onde participou de reuniões com grupos de exilados e elementos anti-regime liderados por Josué Guimarães, Fernando Gasparian…” e por aí vai.  Havia menções  também a conversas com o “perigoso subversivo Flavio Koutzii, recém chegado da Argentina”. Os registros do SNI descreviam minuciosamente os nossos passos quando ciceroneamos em Porto Alegre Luis Carlos Prestes, na sua volta do exílio. Prestes era amigo e antigo companheiro de partido do meu pai. Enfim, havia nos resumos cifrados, numerados e carimbados, outros detalhes da minha vida na década de 70 de que eu até já havia esquecido. Li atentamente tudo aquilo e fiquei pensando, pensando. A gente era permanentemente espionado e não sabia. Ou melhor, suspeitávamos que éramos espionados, mas isto sempre se punha na conta da paranóia geral daqueles tempos. “Cuidado com o telefone!”, ou “Não fala alto que o fulano é do DOPS…”. Por outro lado, ingenuamente, não nos achávamos importantes para os órgãos de informação. Quando houve a primeira apreensão de livros por motivos políticos, nos demos conta de que nossa atividade era de risco; aqueles que faziam livros, para uma ditadura, eram mais perigosos do que os criminosos comuns.

Charge de Santiago que está no livro "Retroscópio" (L&PM, 2010)

Lembro até de uma frase do Millôr Fernandes, sobre aqueles tempos sombrios: “Nós temos muita importância para sermos presos e nenhuma importância para sermos soltos…”. Era bem isso. Hoje se vê; quanto dinheiro eles gastavam para espionar os cidadãos! Estabelecer conexões para xeretear a viagem de um menino de 23 anos em Frankfurt, Londres, Lisboa! Os documentos oficiais que me chegaram às mãos comprovam como uma ditadura é burra, insensível e dispendiosa. Deu pra ver que tínhamos, sim, razões para ter medo. E deu também para chegar a uma melancólica conclusão sobre a natureza humana. Há, nestas dezenas de folhas que eu recebi da Casa Civil, informações quase íntimas, que faz supor que o inimigo/informante, se não estava ao lado, estava muito próximo e muitas vezes, quem sabe, sentado na nossa mesa no bar…

*Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o vigésimo primeiro post da Série “Era uma vez… uma editora“.

Os relógios derretidos de Salvador Dalí

segunda-feira, 28 março 2011

Quando se fala em Salvador Dalí, a imagem que logo vem à mente é a do quadro A persistência da Memória. Muitos podem até não saber o título da obra, mas logo identificam os relógios derretidos, metáfora para a liquidez do tempo. A obra é um ícone da escola surrealista, que tem Dalí como um de seus principais representantes.

Mas surreal mesmo é a imagem abaixo. Pode esfregar os olhos à vontade, mas é isso mesmo: o “melting clock” retratado por Dalí em seu quadro surrealista virou realidade!

A peça foi projetada para ficar apoiada na borda de um móvel plano e dá a impressão de que vai escorregar e cair a qualquer momento. Se você é um apaixonado pela obra do pintor espanhol, vai dar pulos de alegria ao descobrir que o relógio está à venda na Amazon por um preço bem acessível.

Já quem não vê emoção em ter um relógio escorrendo da borda de sua mesa, vale ler o Libelo contra a arte moderna, da série L&PM Pocket Plus, para conhecer melhor o gênio de Salvador Dalí e, quem sabe, se apaixonar por sua obra também :)

via zupi

Teatro de bolso

segunda-feira, 28 março 2011

Teatro do Absurdo, da Crueldade, de Revista, de Rua, do Oprimido, Elisabetano, Épico, Japonês, Invisível, Grego… estes são só alguns (nem a metade!) dos tipos listados no Dicionário de Teatro, de Luiz Paulo Vasconcellos (Coleção L&PM Pocket). Ontem, dia 27 de março, foi o Dia Mundial do Teatro, de todos estes teatros, que em sua essência têm o mesmo objetivo: tocar o público, fazer rir ou fazer chorar.

A santíssima trindade do teatro grego – Ésquilo, Sófocles e Eurípedes – fazia o público chorar como ninguém. As tragédias escritas por eles há mais de dois mil anos como Édipo Rei, Sete contra tebas e Antígona são reencenadas ainda hoje em todo o mundo e a dramaturgia contemporânea ainda se alimenta de personagens como Édipo, Medeia, Helena de Troia, Antígona e Electra.

Cena de "Antígona", de Sófocles.

No volume Tragédias gregas, da série Encyclopaedia, você pode conhecer em detalhes a biografia dos principais autores trágicos e o contexto de sua obra. Já se o assunto for comédia, o maior representante foi Aristófanes, autor de Lisístrata –  A greve do sexo.

Avançando mais de um milênio, em plena Londres do século 16, eram exibidas as primeiras peças de um tal William Shakespeare, que veio a se tornar um dos autores mais encenados de todos os tempos. Textos como Hamlet, MacbethSonho de uma noite de verão inspiraram adaptações, paródias e versões para cinema e TV. São cerca de 20 títulos do autor na Coleção L&PM Pocket e um volume inteiro dedicado ao dramaturgo inglês na série Ouro: Shakespeare – Obras escolhidas.

Confira a lista completa de textos teatrais publicados pela L&PM, que contém entre outros autores os brasileiros Millôr Fernandes e Martins Pena, os russos Anton Tchekhov e Máximo Gorki e o francês Molière.

Os 100 anos de Tennessee Williams, um homem chamado desejo

sexta-feira, 25 março 2011

Tennessee Williams nasceu em 26 de março de 1911. Cem anos redondos amanhã. Autor de “Um bonde chamado Desejo” e “Gata em teto de zinco quente” – só para citar duas de suas peças mais famosas – ele foi batizado como Thomas Lander Williams. Mas aos 26 anos resolveu adotar o pseudônimo que o faria famoso:  Tennessee. Seu tema favorito sempre foi a família problemática: os vínculos prestes a se dissolverem ou já totalmente falidos. Em sua dramaturgia, usou como inspiração a própria vida, sua infância carente de dinheiro e de afeto. A lobotomia da irmã, autorizada pela mãe, por exemplo, está na peça “De repente no último verão”. E há realmente mais dramas do que comédias em seu currículo de vida. Quando garoto, Tennesse Williams fugia de casa para não escutar os gritos da mãe, que não se continha na hora do sexo.  Sem um tostão, passou por uma cirurgia de catarata gratuita diante de uma platéia de estudantes. E certa vez foi espancado por michês marinheiros até ver a morte de perto. Mas ele resistiu, fez sucesso, fez amigos, ganhou fama, ganhou dinheiro, abusou do álcool, abusou da sorte. Até que morreu em fevereiro de 1983, sufocado por uma tampa de spray nasal em um quarto de hotel em Manhattan. “Um bonde chamado desejo”, publicado pela L&PM com tradução de Beatriz Viégas-Faria, foi escrita por Tennessee Williams em 1947. Além de fazer sucesso nos palcos até hoje, o texto imortalizou Marlon Brando no papel do rude Stanley Kowalski, cunhado de Blanche DuBois. Se você ainda não leu esse livro (imperdível, aliás), o centenário de Tennessee pode ser um bom motivo para começar.

Andy Warhol e Tennessee Williams, ambos de óculos escuros

“Os magnatas” e a crise de 2008 nos EUA

sexta-feira, 25 março 2011

No filme Trabalho interno, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2011, o escritor Charles Morris, autor de Os magnatas, é um dos especialistas que tentam explicar o crash de 2008 nos Estados Unidos. O documentário narrado por Matt Damon revela detalhes sórdidos da crise que abalou a maior economia do mundo, causando um prejuízo estimado em mais de 20 trilhões de dólares.

Em sua participação no filme, fica evidente que Charles Morris tem uma visão privilegiada da história, pois para entender o presente, há de se conhecer o passado.  Em Os magnatas, escrito em 2005 (anos antes da crise), ele joga luz sobre os quatro homens por trás do exuberante crescimento econômico que fez dos Estados Unidos o país mais rico, mais criativo e mais produtivo do mundo. Andrew Carnegie (1835-1919), John D. Rockefeller (1839-1937), Jay Gould (1836-1892) e J.P. Morgan (1837-1913) combinavam inteligência, ambição e determinação e, segundo Morris, foram os responsáveis pela criação da supereconomia americana.

Veja um pequeno trecho do documentário (em inglês):

O livro Os magnatas foi publicado na Coleção L&PM Pocket em 2009.