Arquivo de fevereiro, 2011

O livro fashion

segunda-feira, 28 fevereiro 2011

Ainda no clima da premiação do Oscar, encontramos esta foto da ganhadora do prêmio de Melhor Atriz, Natalie Portman, no dia da estreia de Cisne Negro (2010), em que o figurino e o penteado básicos jogam luz sobre um acessório inusitado.

O livro (!) que ela carrega é, na verdade, uma bolsa criada pela designer francesa Olympia Le Tan, que se inspira em clássicos da literatura para fazer suas peças. Além de Lolita, de Nabokov, obras-primas de Salinger, Conrad e Melville também viraram bolsas.

Mas o nosso preferido é, sem dúvidas, o modelo inspirado no Drácula, de Bram Stoker. E você? Com qual visual combinaria o acessório?

Obrigado Doutor Scliar!

segunda-feira, 28 fevereiro 2011

Por Ivan Pinheiro Machado

Era o ano de 1977, a L&PM Editores, literalmente, engatinhava. Estávamos na Livraria Lima, na rua Borges de Medeiros em Porto Alegre, quando entrou o jovem escritor e médico Moacyr Scliar. Ele já havia escrito o livro de contos “O carnaval dos animais” e tivera uma excelente repercussão de público e crítica com dois romances, “A guerra no Bom Fim” e “O exército de um homem só”. Começamos a conversar, ele cumprimentou-nos pela ousadia de fazer uma editora naquela época tão difícil, econômica e politicamente. Foi um papo simpático, o Lima e eu ficamos muito tocados pela atenção. Tínhamos 24 e 23 anos, respectivamente, e uma editora com 25 livros publicados e dois anos e meio de vida. Poucos dias depois, o telefone tocou na “sede” da L&PM, na rua 24 de Outubro, numa velha casa que dividíamos com o arquiteto Roque Fiori (tínhamos duas salas).

– Vou direto ao ponto. Disse Scliar. Vocês querem publicar um livro meu?

"Doutor" Scliar entre Edgar Vasques, Luis Fernando Veríssimo e Josué Guimarães, o grupo de "Pega pra Kaputt"

Ficamos eufóricos. Recém havíamos publicado “É tarde para saber” de Josué Guimarães, e “Devora-me ou te decifro” de Millôr Fernandes. A editora ia bem e publicar Scliar seria um passo muito importante. Foi assim que editamos “Mês de Cães Danados”, um romance que se passa na época da célebre Campanha da Legalidade, quando Leonel Brizola evitou o golpe militar que teria sucesso três anos mais tarde em 1964. Neste mesmo ano de 1977, fizemos “Pega pra Kaputt”, o primeiro (e único) romance coletivo brasileiro que misturava texto e quadrinhos, com Josué Guimarães, Moacyr Scliar, Luis Fernando Veríssimo e Edgar Vasques na HQ e emplacamos o livro mais vendido da Feira do Livro de Porto Alegre com “Mês de Cães Danados”. Logo no ano seguinte, publicamos “Os Deuses de Raquel”, “”Doutor Miragem”. Em 1979, editamos “Os voluntários”. Em 1980, reeditamos o maravilhoso “O exército de um homem só” e “A guerra no Bom Fim”. Em 1983, relançamos o premiadíssimo “O centauro no jardim”, lançado pela Editora de Sérgio Lacerda, a Nova Fronteira, em 1980.

Enfim, de lá para cá, foram 34 anos de convívio e 24 livros lançados.

Ontem, recebemos a notícia que temíamos desde que, no final de janeiro, Scliar hospitalizara-se acometido de um Acidente Vascular Cerebral. O Doutor, como o chamávamos, tinha lutado, mas não conseguiu resistir à gravidade da doença. Em dezembro, Paulo Lima e eu encontramos Scliar no vôo que ia para o Rio. Nós íamos para uma reunião e ele para uma sessão na Academia. No final da tarde, nos encontramos novamente no Santos Dumont, para pegar o vôo de volta. Na ocasião, conversamos bastante e ele falou de seus planos para o futuro, que eram muitos. Estava trabalhando em vários projetos, tinha “uns três ou quatro” romances na cabeça e estava se dedicando a dois. Gentil como sempre, se disse fascinado com a distribuição dos pockets da L&PM: “Semana passada eu estava no interior do interior de Minas para uma palestra e estava lá o display dos pockets, e tinha livros meus!”

Numa carreira que teve seus primeiros passos com o livro “Histórias de um médico em formação” (uma obra de juventude, escrita em 1962, que ele não gostava muito de incluir na sua bibliografia) e “Carnaval dos Animais”, de 1972, foram mais de 70 títulos entre ensaios, contos e romances. A qualidade, inventividade e originalidade da sua obra o levaram ao reconhecimento nacional, internacional (foi traduzido em várias línguas) e à Academia Brasileira de Letras.

Nascido e criado no Bom Fim, o bairro judeu de Porto Alegre, ele soube como ninguém expressar os mistérios ocultos da suas ruas, as múltiplas vozes de emigrantes, refugiados, o humor ácido cultivado numa tradição de sofrimento e fugas. E esta foi sua grande marca. Traduzir esta compatibilidade de uma cultura universal para os nossos trópicos. Sem perder a alma de tradições ancestrais. Scliar, assim, foi universal, razão pela qual seus livros transitam pelo mundo com naturalidade em várias línguas.

Mas recordando a conversa leve e divertida no aeroporto Santos Dumont, um mês e meio atrás, não posso deixar de pensar na velha e batida precariedade das nossas vidas. Scliar estava bem, lépido em seus 73 anos, rápido como sempre, apressado e cheio de planos. Scliar tinha uma urgência em viver. E ele vivia muito através de suas histórias. Escrevia sempre, sempre.

A multidão dos seus leitores terá como consolo uma obra vasta, de enorme qualidade. Mas aqueles que ficam privados dele terão muita saudade. Scliar era amigo e solidário. Não cultivava nem uma grama de inveja, tão comum entre nós; estimulava os jovens escritores como muito poucos, tinha sempre uma palavra de carinho para todos e usava seu espaço na imprensa para divulgar tudo o que ele achava que tinha qualidade ou era promissor. Aqui na L&PM temos o exemplo clássico da generosidade do Doutor. No final dos anos 90, atravessamos uma crise séria, quase fechamos as portas. Scliar, preocupado, acompanhou a “crise” desde os piores momentos, até o final feliz. E nos ajudou muito mais do que ele imaginava. Pois o voto de confiança que depositou em nós, os livros novos que editamos naquele momento incerto, a sua adesão irrestrita à coleção de bolso, lá em 1997, quando todos – autores, imprensa e livreiros – duvidavam que pudesse dar certo, foi fundamental para chegarmos até aqui. Hoje, a L&PM tem a maior coleção de bolso do país e um lugar de destaque entre as grandes editoras brasileiras. O Doutor Scliar faz parte disso e nós seremos gratos para sempre.

15 anos sem Caio F.

sexta-feira, 25 fevereiro 2011

“Howl”, um filme sobre um doce poeta e sua densa poesia

sexta-feira, 25 fevereiro 2011

Por Paula Taitelbaum

Já assisti Howl (Uivo) duas vezes. Uma amiga baixou e legendou para mim. Para os que estão chegando agora, explico: Howl é o filme que conta a história do processo vivido pelo poema homônimo (em português, Uivo) de Allen Ginsberg. Eis minhas breves divagações:

Howl é um filme de amor: a paixão do escritor por seus escritos. Howl é um filme de terror: o horror de ver alguém que tenta transformar metáforas em monstros. Howl é um filme que não conta uma história: canta uma poesia. James Franco encarna Allen Ginsberg com maestria em pouco mais de noventa minutos que mesclam tempos e linguagens diferentes. Vemos o poeta beat em preto e branco recitando seu longo, lânguido e denso poema, em 1955, na Six Gallery em São Francisco. Somos levados a uma viagem ácida e atemporal em desenho animado que lembra The Wall, do Pink Floyd. Aterrisamos no tribunal em que, no ano de 1957, Lawrence Ferlinghetti, o editor de Howl, está sendo julgado por obscenidade com base no conteúdo erótico e homossexual do poema. Entramos na casa de Ginsberg, quando o filme recebe um tom de documentário e o poeta vivido por Franco conta a um repórter (ou talvez um biógrafo) passagens de sua vida e o que sente ao escrever, enquanto flashbacks mostram sua relação com Jack Kerouac e Neal Cassady. Não é um filme extraordinário, está longe de ser um filme inovador, tão pouco se revela um filme que concorreria ao Oscar, por exemplo. Mas para quem cria ou ama poesia, o filme emociona, soa como inspiração, faz refletir sobre o ato de escrever. Nos EUA, sua bilheteria não foi nada generosa e provavelmente por isso ele dificilmente entre em circuito comercial no Brasil. Já em Londres, sua estreia está marcada oficialmente para hoje e todos os principais jornais britânico trazem textos e reportagens que falam sobre o assunto. No The Guardian de quarta-feira, por exemplo, é possível ler uma matéria que traz alguns depoimentos de pessoas que conviveram com Ginsberg, entre elas, John Cassady, filho de Neal e Carolyn Cassady. Seu depoimento revela uma das faces mais interessantes desse filme para mim: a oportunidade de conhecer um pouco melhor a doce personalidade de Allen Ginsberg. Veja o que disse John:

“Eu o considero meu segundo pai, mas ele era mais como um tio. Eu me lembro que, em 1964, os Beatles tinham acabado de chegar nos EUA – eu tinha 14 anos e era um grande fã deles. Eu morava com meus pais em uma casa na Califórnia e Jack (Kerouac) e Allen e todo mundo estava sempre por lá. Foi uma infância bem interessante, como você pode imaginar. Eu estava sentado na mesa do café na frente de Allen e ele disse: ‘Johnny! Você quer saber um furo de reportagem? Quer saber de uma sujeira?’ Ele fez um olhar conspiratório e disse: ‘Os Beatles fumam maconha.’ E eu perguntei: ‘O que é maconha?’ E Allen olhou atônito para mim e fez aquela cara do tipo ‘você não é o filho de Neal Cassady, como assim o que é maconha?’. Ele ficou todo excitado para me contar: então ali estavam Allen Ginsberg e Bob Dylan introduzindo os Beatles à maconha num quarto de hotel depois do show de Ed Sulivan. Quantos garotos ouviram uma história como esta?

Uma vez minha mãe fez um festão em 1973, esqueci qual a desculpa. Allen apareceu com um grande curativo na sua perna direita, de muleta. Eu perguntei o que tinha acontecido e ele me deu uma piscada e disse: ‘Perseguindo mulheres’. Bem, ele sabia que eu sabia a verdade e eu dei uma grande gargalhada. Quando a polícia chegou na festa havia carros acima e abaixo da rua por cinco quilômetros. Eles viram Allen e pediram um autógrafo. Os policiais eram seus fãs. Ou seja: é ou não é um grande mundo esse? Allen foi sempre muito gentil e uma alma generosa, nunca foi egoísta. Só muitos anos depois eu descobri que ele era uma espécie de rock star da literatura.”

Clique sobre a imagem e veja vídeo com trechos de "Howl" legendados na L&PM Web TV

O poema Howl (Uivo) é publicado na L&PM em versão convencional e pocket.

Novo DVD de Peanuts a caminho

quinta-feira, 24 fevereiro 2011

Está previsto para março o lançamento do novo DVD e Blue-Ray de Peanuts nos Estados Unidos. Ainda sem data para chegar no Brasil, “Happiness is a Warm Blanket, Charlie Brown” é o primeiro da série “Hapiness is…”, tema do Snoopy para este ano.

Em “Happiness is a Warm Blanket, Charlie Brown”, Linus luta para ficar com seu “cobertor quentinho”, já que os adultos querem separá-los. Sabe-se que a turma inteira se envolve, mas o final dessa história só será descoberto quando o DVD chegar por aqui.

Enquanto isso não acontece, assista a um trecho de Peanuts, com Linus e seu inseparável cobertor:

Em março, chega às livrarias o volume 4 de Peanuts completo, editado pela L&PM.

Literatura em códigos

quarta-feira, 23 fevereiro 2011

Literatura digital é a bola da vez. Em breve, os e-books L&PM já estarão disponíveis e as iniciativas independentes também não ficam para trás. O projeto books2barcodes, mantido pelo site Wonder-Tonic, transformou 12 clássicos da literatura em QRCode, uma espécie de código de barras que pode ser lido por celular. A ideia é “tornar a literatura de ontem acessível às tecnologias de hoje”. Alguns dos títulos disponíveis no books2barcodes são Alice no país das maravilhas, Sherlock Holmes, Orgulho e preconceito e Guerra e paz.

O formato alternativo, no entanto, apresenta alguns problemas como a baixa capacidade de armazenamento: cada código contém apenas de 800 caracteres, o que pode tornar a leitura um pouco trabalhosa. Os QRCodes que compõem Guerra e paz, por exemplo, se impressos, caberiam em 343 páginas formato A4. Tudo bem que os 4 volumes do clássico de Tolstoi, somados, têm 1492 páginas, mas se a ideia é inovar no formato, o resultado teria que ser, no mínimo, mais prático.

As pílulas de texto podem ser baixadas em qualquer celular com câmera fotográfica que tenha instalado um aplicativo que lê código de barras, como o RedLaser, ou ainda o Google Goggles. Não há entraves técnicos para a maioria dos smartphones, o problema realmente é a paciência para baixar o livro de 800 em 800 caracteres.

Há 69 anos, morria o escritor Stefan Zweig

quarta-feira, 23 fevereiro 2011

Dizem que o Brasil é o país do futuro (e parece que sempre será). Mas o que nem todos sabem é que a frase que hoje é clichê não foi criada por um brasileiro, mas proferida em livro por um austríaco, o escritor Stefan Zweig. Em 1936, convidado para um congresso em Buenos Aires, Zweig aproveitou para visitar também o Brasil. Chegou esperando encontrar “uma daquelas repúblicas sul-americanas que não distinguimos bem umas das outras, com clima quente e insalubre, situação política instável e finanças em desordem…”, como depois escreveria. Mas ao desembarcar no Rio de Janeiro, a sensação foi outra: “Fiquei fascinado e, ao mesmo tempo, estremeci. Pois não apenas me defrontei com uma das paisagens mais belas do mundo, esta combinação ímpar de mar e montanha, cidade e natureza tropical, mas ainda com um tipo completamente diferente de civilização”. A partir de então, Zweig envolveu-se tão intensamente pelo Brasil que, em 1941 mudou-se para Petrópolis, virou biógrafo de Américo Vespúcio e escreveu o apaixonado ensaio histórico Brasil, um país do futuro.

Em 23 de fevereiro de 1942, deprimido com as barbáries da Segunda Guerra e sem esperanças no futuro da humanidade, cometeu suicídio junto com a esposa Lotte na casa que moravam em Petrópolis, ingerindo uma alta dose de barbitúricos. No dia seguinte, o Jornal do Brasil trazia a notícia: “Morre tragicamente um dos maiores escritores contemporâneos – Stefan Zweig e sua esposa suicidaram-se em Petrópolis na tarde de ontem – Os funerais serão feitos pelo governo e se realizarão hoje.”

Tombada pelo IPHAN, a última morada do escritor hoje é a Casa Stefan Zweig, uma entidade cultural sem fins lucrativos que homenageia sua memória, através do acervo físico com objetos pessoais e relativos às suas obras e à sua época, com coleção de livros, fotos, documentos, vídeos, filmes, biblioteca.

Além de Brasil, um país do futuro, a L&PM publica em pocket Medo e outras histórias e 24 horas na vida de uma mulher.

16. Millôr Fernandes vai ao pampa

terça-feira, 22 fevereiro 2011

*Por Ivan Pinheiro Machado

No início dos anos 80, Millôr Fernandes e seu amigo, o fotógrafo Yllen Kerr (já falecido e conhecido como o homem que criou a moda de correr na beira da praia no Rio de Janeiro) vieram a Porto Alegre para uma excursão às fronteiras vazias dos pampas. Nosso amigo Paulo Odone Ribeiro, que mais tarde seria deputado e presidente do Grêmio Foot-ball Portoalegrense, havia convidado a dupla carioca para passar a Semana Santa na sua fazenda, na fronteira com a Argentina, município de São Borja, um dos legendários Sete Povos das Missões. O Paulo Lima, eu – já editores do Millôr – e nossas respectivas mulheres da época, em dois carros Alfa Romeo Ti4 2300, levaríamos o pessoal. Naquele tempo, as Alfas eram fabricadas no Brasil e tinham um tanque de gasolina de 100 litros. É importantíssimo que os jovens saibam que, para economizar gasolina, era proibido por lei vender o precioso combustível em fins de semana e feriados (viram como é bom ditadura?). Como eram 700 quilômetros de Porto Alegre até a Fazenda Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e iríamos na Sexta-feira Santa, tínhamos que ter autonomia de combustível, pois não poderíamos reabastecer no caminho.

Naquele tempo, no interiorzão, não havia rede de eletricidade. A luz chegava através de um motor movido a óleo diesel, que era ligado ao anoitecer e desligado logo depois do jantar. Isto quer dizer que não havia televisão, nem o mundo era globalizado. Depois de 12 horas de viagem, chegamos na fazenda num final de tarde cinematográfico. Um verdadeiro céu “de aerógrafo”, como disse o Millôr na ocasião. Para abrir a porteira da estância veio um peão de bombachas, camiseta regata branca, palito nos dentes, sandálias havaianas com esporas atadas ao pé (esporas no “garrão”, como se diz na fronteira) e, naturalmente, um reluzente 38 cano longo na cintura. Andamos uma centena de metros até a sede da estância, fomos recebidos pelo Odone e sua mulher Niúra que nos levaram imediatamente para o galpão, centro nevrálgico de uma fazenda gaúcha. O galpão é basicamente o local onde fica o pessoal de serviço. Ali está o fogo de lenha de coronilha que jamais se apaga: esquenta a água do chimarrão, cozinha o assado e aquece o pessoal nas madrugadas frias. No Rio Grande, o galpão é cultuado como o lugar de socialização, onde rolam as conversas, os causos, enquanto o chimarrão roda de mão em mão. Pois sentamos. A peonada vestida a caráter, quieta, só observava aquela conversa animada e se divertia com o sotaque carioca dos visitantes. Subitamente, um daqueles peões aponta para o Millôr e pergunta naquele sotaque fronteiriço, quase puxado para um portunhol:

– O senhor é do Rio de Janeiro?

– Sim sou, respondeu simpaticamente o Millôr.

E o peão tascou sem rodeios:

– Conhece o Moreira?

Houve um silencio perplexo.

– Um gordo!– arrematou, fazendo um gesto com os braços que indicavam uma barriga acentuada.

– Mas… – gaguejou Millôr Fernandes espantado – o Rio é muito grande…

– Mas o Moreira é um tipaço – disse o homem –, onde ele chega todo mundo já conhece pela prosa. Ele não para de falar!

O Millôr pensou, pensou e resolveu sair-se diplomaticamente:

– Sabe, não estou me lembrando do Moreira…

Millôr de bombachas

Millôr Fernandes “pilchado” em 1979 – Foto: Ivan Pinheiro Machado

Para confirmar visualmente a história que narro a seguir, vocês podem ver Millôr Fernandes totalmente “pilchado”, como um autêntico gaúcho. Botas, bombachas, chapéu de aba larga, lenço no pescoço e a fundamental guaiaca, que é o cinturão que abriga o revólver e as facas. Em poucos dias, o grande intelectual carioca parecia um autêntico habitante dos pampas do extremo meridional brasileiro. Yllen Kerr, jornalista, fotógrafo, apreciador de esportes radicais e corredor de rua, causou furor entre a peonada ao montar de forma impecável um dos cavalos tidos como dos mais “brabos” do plantel. Yllen tinha servido no exército, na Cavalaria, e tinha grande perícia para dominar um cavalo.

No começo da tarde do domingo, estávamos todos vestidos desta forma radical, quando fomos convidados para acompanhar e peonada até a fazenda vizinha onde haveria carreiras (de cavalos) numa cancha reta. Era o grande programa domingueiro na região. Estávamos nos preparando para entrar na camionete, quando o velho peão que nos guiava apontou para a arma que Millôr levava (descarregada, naturalmente):

- O senhor vai levar a arma?

- Acho que vou, disse o Millôr, rindo, mas sem muita convicção.

- Pretende usar? Perguntou o peão.

- Claro que não!

- Então não leve.

E encerrou o assunto. Na fronteira, cancha reta e revólver são assuntos muito sérios…

Para ler o próximo post da série “Era uma vez uma editora…” clique aqui.

 

Eu, Andy Warhol

terça-feira, 22 fevereiro 2011

Há exatos 24 anos, enquanto se recuperava de uma cirurgia simples no Hospital de Nova York, Andy Warhol sofreu uma “arritmia pós-operatória cardíaca súbita” e não resistiu. Venerado desde sempre por artistas e críticos como o ícone maior da pop art, Warhol deixou um legado vivo que vai além das obras em si. Os múltiplos serigráficos e as analogias do consumo a partir da reprodução mecânica dos rostos de Marilyn Monroe, Mao Tsé Tung, Che Guevara e Pelé em nuances coloridas são o espírito da pop art como a conhecemos hoje.

Após a morte de Andy Warhol, as condições técnicas para a reprodução de imagens evoluíram de forma impressionante. Manipular fotos, por exemplo, tornou-se banal. Com um Photoshop e um pouco (não muito) de habilidade artística, é possível viver seus 15 minutos de Andy Warhol, nem que seja para prestar uma homenagem ao mestre.

O vídeo a seguir explica passo a passo como fazer no Photoshop a sua própria Marilyn Monroe a partir de uma imagem qualquer:

Clique para ir à página do vídeo

O nascimento de um dos maiores nomes da literatura erótica

segunda-feira, 21 fevereiro 2011

No dia 21 de fevereiro de 1903, às 20 horas e 25 minutos, Lucile Anna Marie Mabille, uma parteira francesa de 41 anos, ajudou a colocar no mundo uma menina que receberia o nome de Rose Jeanne Anaïs Edelmira Antolina Nin, segundo sua certidão de nascimento. Lavrada três dias depois, às 11 da manhã, tal certidão traz como pai Joseph Joachim Nin, de 23 anos, e como mãe Rosa Celeste Culmell, de 25 anos. Como endereço da família, Rue du Général Henrion Bertier, Neuilly-sur-Sein (subúrbio de Paris). Curiosamente, a idade da mãe estava incorreta: ela tinha, na verdade, 31 anos quando a filha nasceu. Se isso foi um erro de grafia ou se Joaquin queria manter a diferença de idade em segredo, é pura especulação. Certo é que, naquele dia nasceu aquela que ficaria conhecida com o sonoro nome de Anaïs Nin.

A certidão de nascimento de Anaïs Nin está no blog oficial da escritora, o Sky Blue Press

Quando Anaïs tinha doze anos, o pai abandonou a família e a mãe decidiu mudar-se com os três filhos para os Estados Unidos. E foi justamente a bordo do navio que rumava para a América que, em 1914, a menina deu início aos diários que seriam escritos por toda a vida e publicados na íntegra somente depois de sua morte.  Seus textos, influenciados pela psicanálise e pelo sentimento de abandono do pai são carregados de erotismo e de experiência pessoais. Em “Henry e June”, ela conta sua relação triangular com Henry Miller e com sua mulher June (vivida no cinema por Uma Thurman). Em “Incesto”, ela detalha o conturbado período de sua vida entre os anos 1932 e 1934 quando, entre complexas relações amorosas, ela reencontra o pai e acaba envolvida em um perturbador relacionamento incestuoso.

O primeiro volume de “Incesto” foi publicado em 1966, mas para preservar a família e seus amantes, Anaïs decidiu excluir os trechos mais comprometedores. Somente em 1986, quase dez anos após a sua morte, Rupert Pole, seu segundo marido, começou a realizar o desejo expresso em vida pela escritora: o de que todos os volumes dos Diários fossem editados sem cortes.

O interessante é que, em seus diários, raramente Anaïs refere-se ao seu aniversário. Mas em 20 de fevereiro de 1925, um dia antes de completar 22 anos, ela escreveu: “Na véspera do meu aniversário, curvando-me à tradição, tento considerar com cuidado o significado deste venerável dia em vão. As datas que nunca concordam com as minhas transformações. Meu aniversário real neste ano foi quando eu li os livros de Edith Wharton. Meu ano novo começou quando consegui ter a minha história funcionado sem problemas, quando eu encontrei um  renovado interesse em meu segundo livro… “