Futebol ao sol e à sombra

Leia texto inédito de Galeano sobre a Copa de 2010

sexta-feira, 16 julho 2010

A primeira edição de Futebol ao sol e à sombra (sobre o qual fizemos uma série no blog), de Eduardo Galeano, foi lançada em 1995. Desde então, a cada nova Copa do Mundo, ele atualiza o livro e acrescenta novos textos. Foi assim em 1998, 2002 e 2006. Agora, menos de uma semana após o final do mundial, disponibilizamos com exclusividade em nosso site, o anexo sobre a Copa de 2010, que será incluído na próxima reedição do livro.

A Copa do Mundo de 2010

Eduardo Galeano

Uma campanha internacional transformava o Irã no mais grave perigo para a humanidade, porque dizem que dizem que o Irã teria ou poderia ter armas nucleares, como se tivessem sido iranianos os que lançaram bombas atômicas sobre a população civil de Hiroshima e Nagasaki.
Israel metralhava, em águas internacionais, os navios que levavam à Palestina alimentos, remédios e brinquedos, num dos habituais atos criminosos que castigam os palestinos como se eles, que são semitas, fossem culpados pelo antissemitismo e seus horrores.
O Fundo Monetário, o Banco Mundial e numerosos governos humilhavam a Grécia, obrigando-na a aceitar o inaceitável, como se tivessem sido os gregos, e não os banqueiros de Wall Street, os responsáveis pela pior crise internacional desde 1929.
O Pentágono anunciava que os seus especialistas haviam descoberto no Afeganistão uma jazida de um bilhão de dólares em ouro, cobalto, cobre, ferro e, sobretudo, lítio, o cobiçado mineral imprescindível para os telefones celulares e os computadores portáteis, e o país invasor anunciava isso alegremente, como se ao fim de quase nove anos de guerra e milhares de mortos, tivesse encontrado o que procurava de fato no país invadido.
Na Colômbia, aparecia uma vala comum com mais de dois mil mortos sem nome que o exército havia jogado ali como se fossem guerrilheiros abatidos em combate, ainda que os moradores do lugar soubessem que eram militantes sindicais, ativistas comunitários e camponeses que defendiam as suas terras.
Uma das piores catástrofes ecológicas de todos os tempos transformava o golfo do México numa imensa poça de petróleo, e um mês e meio depois, o fundo do mar seguia sendo um vulcão de petróleo, enquanto a empresa British Petroleum assoviava e olhava para o outro lado, como se não tivesse nada a ver com isso.
Em vários países, uma enxurrada de denúncias acusava a Igreja Católica de abusos sexuais e violações de crianças, e por todo lado se multiplicavam os testemunhos que o medo havia reprimido durante anos e que, por fim, vinham à luz, enquanto algumas fontes eclesiásticas se defendiam dizendo que essas atrocidades ocorriam também fora da Igreja, como se isso a desculpasse e que, em muitos casos, os sacerdotes tinham sido provocados, como se os culpados fossem as vítimas.
Fontes bem informadas de Miami seguiam negando-se a acreditar que Fidel Castro seguisse vivinho da silva, como se ele não estivesse lhes dando novos desgostos a cada dia.
Perdíamos dois escritores sem suplentes, José Saramago e Carlos Monsiváis, e sentíamos falta deles como se não soubéssemos que seguirão ressuscitando entre os mortos, por mais que pareça impossível, pelo puro prazer de atormentar os donos do mundo.
E no porto de Hamburgo, uma multidão comemorava o retorno à primeira divisão alemã do clube de futebol Sankt Pauli, que conta com vinte milhões de simpatizantes, por mais que pareça impossível, congregados em torno das bandeiras do clube: não ao racismo, não ao sexismo, não à homofobia, não ao nazismo.
Enquanto longe dali, na África do Sul, era inaugurado o décimo nono campeonato mundial de futebol, sob o amparo de uma dessas bandeiras: não ao racismo. 

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Durante um mês, o mundo deixou de girar e muitos dos seus habitantes deixamos de respirar.
Nada atípico, porque isso ocorre a cada quatro anos, mas o atípico foi que esta foi a primeira Copa em terra africana.
A África negra, desprezada, condenada ao silêncio e ao esquecimento, pôde ocupar por um momento o centro da atenção universal, ao menos enquanto durou o campeonato.
Trinta e dois países disputaram a Copa em dez estádios que custaram uma dinheirama. E não se sabe como a África do Sul fará para manter em atividade esses gigantes de cimento, esbanjo multimilionário fácil de explicar, mas difícil de justificar num dos países mais injustos do mundo. 

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O estádio mais belo, em forma de flor, abre as suas imensas pétalas sobre a baía chamada Nelson Mandela.
Mandela foi o herói desta Copa. Uma homenagem mais do que merecida ao fundador da democracia naquele país. O seu sacrifício rendeu frutos que, de alguma forma, podem ser vistos no planeta inteiro. No entanto, na África do Sul, os negros continuam sendo os mais pobres e os mais castigados pela polícia e pelas pestes, e foram os negros, os mendigos, as prostitutas e os meninos de rua que, nas vésperas da Copa, foram escondidos para não dar má impressão para as visitas. 

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Ao longo do torneio, pôde-se ver que o futebol africano conservou a sua agilidade, mas perdeu desenvoltura e fantasia. Correu muito, mas dançou pouco. Há quem acredite que os técnicos das seleções, quase todos europeus, tenham contribuído para esse endurecimento. Se foi assim, pouco ajudaram um futebol que prometia tanta alegria.
A África sacrificou as suas virtudes em nome da eficácia, e a eficácia brilhou pela sua ausência. Um só país africano, Gana, ficou entre os oito melhores; e pouco depois, também Gana voltou para casa. Nenhuma seleção africana sobreviveu, nem sequer a do país anfitrião.
Muitos dos jogadores africanos, dignos da sua herança de bom futebol, vivem e jogam no continente que havia escravizado os seus avôs.
Numa das partidas da Copa, enfrentaram-se os irmãos Boateng, filhos de pai ganense: um vestia a camisa de Gana, e o outro, a camisa da Alemanha.
Dos jogadores da seleção de Gana, nenhum jogava no campeonato local.
Dos jogadores da seleção da Alemanha, todos jogavam no campeonato local da Alemanha.
Como a América Latina, a África exporta mão-de-obra e pé-de-obra.

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Jabulani foi o nome da bola do torneio, ensaboada, meio louca, que fugia das mãos e desobedecia aos pés. Essa novidade da Adidas foi imposta no Mundial, mesmo que os jogadores não gostassem nem um pouquinho dela. Do seu castelo de Zurich, os senhores do futebol impõem, não propõem. Eles têm esse costume. 

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Os erros e os horrores cometidos por alguns árbitros colocaram mais uma vez em evidência o que o senso comum exige há muitos anos.
Aos gritos, o senso comum clama, sempre em vão, que o árbitro possa consultar os primeiros planos, registrados pelas câmeras, de jogadas decisivas que sejam duvidosas. A tecnologia permite, agora, que esse cotejo seja feito com a rapidez e a naturalidade com que se consulta outro instrumento tecnológico, chamado relógio, para medir o tempo de cada partida.
Todos os demais esportes, como o basquete, o tênis, o beisebol, a natação e até a esgrima e as corridas de automóvel, utilizam normalmente as ajudas eletrônicas. O futebol, não. E a explicação de seus amos seria cômica, se não fosse simplesmente suspeita: o erro faz parte do jogo, dizem, e nos deixam boquiabertos descobrindo que errare humanum est. 

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A melhor defesa do torneio não foi obra de um goleiro, mas de um goleador: o atacante uruguaio Luis Suárez deteve a escorregadia bola com as duas mãos, na linha do gol, no último minuto de uma partida decisiva. Esse gol teria deixado o seu país fora da Copa: graças ao seu ato de patriótica loucura, Suárez foi expulso, mas o Uruguai não. 

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O Uruguai, que havia entrado na Copa em último lugar, depois de uma penosa classificação, jogou todo o campeonato sem se render nunca, e foi o único país latino-americano que chegou às semifinais. Alguns cardiologistas nos advertiram, pela imprensa, que o excesso de felicidade pode ser perigoso para a saúde. Muitos de nós, uruguaios, que parecíamos condenados a morrer de tédio, comemoramos esse risco, e as ruas do país viraram uma festa. Ao fim e ao cabo, o direito de festejar os próprios méritos é sempre preferível ao prazer que alguns sentem pela desgraça alheia.
O Uruguai terminou em quarto lugar, o que não é tão ruim para o único país que pôde evitar que esta Copa não passasse de uma Eurocopa.
Diego Forlán, nosso goleador, foi eleito o melhor jogador do torneio.

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Ganhou a Espanha. Esse país, que nunca havia conquistado a taça mundial, ganhou com justiça, por obra e graça do seu futebol solidário, um por todos, todos por um, e pela assombrosa habilidade desse pequeno mago chamado Andrés Iniesta.
Holanda foi vice, depois de uma última partida em que traiu, aos pontapés, as suas melhores tradições. 

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A campeã e a vice-campeã da Copa anterior voltaram para casa sem abrir as malas. Em 2006, Itália e França tinham se encontrado na partida final. Agora se encontraram na porta de saída do aeroporto. Na Itália, se multiplicaram as vozes críticas a um futebol jogado para impedir que o rival jogue. Na França, o desastre provocou uma crise política e acendeu as fúrias racistas, porque haviam sido negros quase todos os jogadores que cantaram a Marselhesa nos estádios sul-africanos.
Outros favoritos, como a Inglaterra, tampouco duraram muito.
Brasil e Argentina sofreram cruéis banhos de humildade. O Brasil estava irreconhecível, salvo nos momentos de liberdade que arrombaram a jaula do esquema defensivo. De que sofria este futebol para precisar de um remédio tão duvidoso?
A Argentina foi goleada na sua última partida. Meio século antes, outra seleção argentina havia recebido uma chuva de moedas quando retornou de uma Copa desastrosa, mas desta vez foi bem recebida por uma multidão afetuosa. Ainda há pessoas que creem em coisas mais importantes do que o êxito ou o fracasso. 

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Esta Copa confirmou que os jogadores se lesionam com reveladora frequência, triturados como estão pelo extenuante ritmo de trabalho que o futebol profissional impõe impunemente. Dirão que alguns ficaram ricos, e até riquíssimos, mas isso só é verdade para os mais cotados, que além de jogar dois ou mais jogos por semana, e além de treinar noite e dia, sacrificam à sociedade de consumo os seus escassos minutos livres vendendo cuecas, carros, perfumes e barbeadores e posando para as capas das revistas de luxo. E, ao fim e ao cabo, isso só prova que este mundo é tão absurdo que tem até escravos milionários. 

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Faltaram ao encontro duas das superestrelas mais anunciadas e esperadas. Lionel Messi quis comparecer, fez o que pôde, e algo foi visto. Dizem que Cristiano Ronaldo esteve lá, mas ninguém o viu: talvez estivesse muito ocupado vendo-se a si mesmo.
Mas uma nova estrela, inesperada, surgiu das profundidades dos mares e se elevou ao ponto mais alto do firmamento futebolístico. É um polvo que vive num aquário da Alemanha. Chama-se Paul, ainda que merecesse chamar-se Polvodamus.
Antes de cada jogo, formulava as suas profecias. Faziam-no escolher entre os mexilhões que levavam as bandeiras dos dois rivais. Ele comia os mexilhões do vencedor, e não errava.
O oráculo octópode, que influenciou decisivamente nas apostas, foi ouvido no mundo futebolístico com religiosa reverência e foi amado e odiado e até caluniado por alguns ressentidos, como eu: quando anunciou que Uruguai perderia contra Alemanha, denunciei:
− Este polvo é um corrupto.

***

Quando o Mundial começou, pendurei na porta da minha casa um cartaz que dizia: Fechado devido ao futebol.
Quando o retirei, um mês depois, eu já havia jogado sessenta e quatro jogos, de cerveja na mão, sem me mover da minha poltrona preferida.
Essa proeza me deixou moído, com os músculos doloridos e a garganta arrebentada; mas já estou sentindo saudades. Já começo a sentir falta da insuportável ladainha das vuvuzelas, da emoção dos gols não recomendados para cardíacos, da beleza das melhores jogadas repetidas em câmera lenta. E também da festa e do luto, porque às vezes o futebol é uma alegria que dói, e a música que comemora alguma vitória dessas que fazem os mortos dançar soa muito parecida ao clamoroso silêncio do estádio vazio, onde algum vencido, sozinho, incapaz de se mover, espera sentado em meio às imensas arquibancadas sem ninguém.

A guerra dançada

sexta-feira, 9 julho 2010

No futebol, sublimação ritual da guerra, onze homens de calção acabam sendo a espada vingadora do bairro, da cidade ou da nação. Estes guerreiros sem armas nem couraças exorcizam os demônios da multidão e confirmam sua fé: em cada confronto entre duas equipes, entram em combate velhos ódios e amores herdados de pai para filho. O estádio tem torres e estandartes, como um castelo, e um fosso fundo e largo ao redor do campo. No meio, uma raia branca assinala os territórios em disputa. Em cada extremo, aguardam os arcos, que serão bombardeados por boladas. Em frente aos arcos, a área se chama zona de perigo. No círculo central, os capitães trocam flâmulas e se cumprimentam como manda o ritual. Soa o apito do árbitro e a bola, outro vento assobiador, põe-se em movimento. A bola vai e vem e um jogador leva essa bola e passeia com ela até que alguém lhe dá uma trombada e ele vai escarranchado. A vítima não se levanta. Na imensidão da grama verde, jaz o jogador. E na imensidão das arquibancadas, vozes trovejam. A torcida inimiga ruge amavelmente:
- Morre!
- Que se muera!
- Devi morire!
- Tuez-le!
- Mach ihn nieder!
- Let him die!
- Kill kill kill!


Como a Copa termina neste final de semana, nossa série de posts com trechos de 
Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano também encerra-se por aqui. Que vença o melhor. Ou não.
Leia os posts anteriores:
Cruyff
Gol de Zarra
Obdulio
Gol de Maradona
O gol
O árbitro
Gol de Nilton Santos
O pecado de perder

Gol de Zarra

quarta-feira, 7 julho 2010

Foi no Mundial de 50. A Espanha acossava a Inglaterra, que só atinava em chutar de longe.
O ponta Gaínza devorou a cancha pela esquerda, passou por meia defesa e cruzou a bola para a meta inglesa. O zagueiro Ramsey chegou a tocá-la, de costas, no contrapé, quando Zarra arremeteu e meteu a bola, raspando a trave esquerda.
Telmo Zarra, goleador da Espanha em seis campeonatos, herdeiro do toureiro Manolete na paixão popular, jogava com três pernas. A terceira perna era sua cabeça fulminante. Foram de cabeça seus gols mais famosos. Zarra não fez de cabeça aquele gol da vitória, mas comemorou-o apertando entre as mãos a medalhinha da Imaculada, pendurada no peito.
O dirigente máximo do futebol espanhol, Armando Muñoz Calero, que tinha participado da invasão nazista a terras russas, enviou por rádio uma mensagem ao generalíssimo Franco:

- Excelência: vencemos a pérfida Albion.

Era a vingança pela aniquilação da Invencível Armada Espanhola, que tinha sido derrotada em 1588 nas águas do Canal da Mancha.
Munõz Calero dedicou a partida “ao Melhor Caudilho do Mundo”. Não dedicou a ninguém a partida seguinte, quando a Espanha enfrentou o Brasil e levou seis gols.

Até o final da Copa, o blog da L&PM publica diariamente um trecho do livro Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano. Leia os anteriores:
Obdulio
Gol de Maradona
O gol
O árbitro
Gol de Nilton Santos
O pecado de perder

Gol de Maradona

segunda-feira, 5 julho 2010

Foi em 1973. Jogavam as equipes infantis de Argentinos Juniores e River Plate, em Buenos Aires. O número 10 do Argentinos recebeu a bola de seu goleiro, evitou o beque central do River e começou a corrida. Vários jogdores foram ao seu encontro: passou a bola por fora de um deles, entre as pernas de outro, e enganou mais um de calcanhar. Depois, sem parar, deixou paralisados os zagueiros e botou o goleiro caído no chão, e se meteu caminhando com a bola na meta rival. No campo tinham ficado sete meninos fritos e quatro que não conseguiam fechar a boca.�
Aquela equipe de garotinhos, os Cebollitas, estava invicta há cem partidas e tinha chamado a atenção dos jornalistas. Um dos jogadores, Veneno, que tinha treze ans, declarou:
- Jogamos para nos divertir. Nunca vamos jogar por dinheiro. Quando entra dinheiro, todos se matam para ser estrelas, e então chega a hora da inveja e do egoísmo.
Falou abraçado ao jogador mais querido de todos, que também era o mais alegre e o mais baixinho: Diego Armando Maradona, que tinha doze anos e acabava de fazer aquele gol incrível.
Maradona tinha o costume de pôr a língua para fora quando estava em pleno impulso. Todos os seus gols tinham sido feitos com a língua de fora. De noite dormia abraçado com a bola e de dia fazia prodígios com ela. Vivia numa casa pobre de um bairro pobre e queria ser técnico industrial.

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O gol
O árbitro
Gol de Nilton Santos
O pecado de perder

Garrincha

sexta-feira, 2 julho 2010

Algum de seus muitos irmãos batizou-o de Garrincha, que é o nome de um passarinho inútil e feio. Quando começou a jogar futebol, os médicos o desenganaram: diagnosticaram que aquele anormal nunca chegaria a ser um esportista. Era um pobre resto de fome e de poliomelite, burro e manco, com um cérebro infantil, uma coluna vertebral em S e duas pernas tortas para o mesmo lado.

Nunca houve um ponta-direita como ele. No Mundial de 58, foi o melhor em sua posição. No Mundial de 62, o melhor jogador do campeonato. Mas ao longo de seus anos nos campos, Garrincha foi além: ele foi o homem que deu mais alegria em toda a história do futebol. Quando ele estava lá, o campo era um picadeiro de circo: a bola, um bicho amestrado; a partida, um convite à festa. Garrincha não deixava que lhe tomasse a bola, menino defendendo sua mascote, e a bola e ele faziam diabruras que matavam as pessoas de riso: ele saltava sobre ela, ele pulava sobre ela, ele se escondia, ele escapava, ela o expulsava, ela o perseguia. No caminho, os adversários trombavam entre si, enredavam nas próprias pernas, mareavam, caíam sentados. Garrincha exercia suas picardias de malandro na lateral do campo, no lado direito, longe do centro: criado nos subúrbios, jogava nos subúrbios. Jogava para um time chamado Botafogo, e esse era ele: o Botafogo que incendiava os estádios louco por cachaça e por tudo que ardesse, o que fugia das concentraçõs, pulando pela janela, porque dos terrenos baldios longínquos o chamava alguma bola que pedia para ser jogada, alguma música que exigia ser dançada, alguma mulher que queria ser beijada.

Um vencedor? Um perdedor com boa sorte. E a boa sorte não dura. Bem dizem no Brasil que se merda tivesse valor, os pobres nasceriam sem cu.

Garincha morreu sua morte: pobre, bêbado e sozinho.

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O gol
O árbitro
Gol de Nilton Santos
O pecado de perder

O gol

quinta-feira, 1 julho 2010

O gol é o orgasmo do futebol. E, como o orgasmo, o gol está cada vez menos frequente na vida moderna. Há meio século, era raro que uma partida terminasse sem gols: 0 a 0, duas bocas abertas, dois bocejos. Agora, os onze jogadores passam toda a partida pendurados na trave, dedicados a evitar os gols e sem tempo para fazer nenhum. O entusiasmo que se desencadeia cada vez que a bola sacode a rede pode parecer mistério ou loucura, mas é preciso levar em conta que o milagre é raro. O gol, mesmo que seja um golzinho, é sempre goooooooooooooool na garganta dos locutores de rádio, um dó de peito capaz de deixar Caruso mudo para sempre, e a multidão delira e o estádio se esquece que é de cimento, se solta da terra e vai para o espaço.

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O árbitro
Gol de Nilton Santos
O pecado de perder 

O árbitro

quarta-feira, 30 junho 2010

O árbitro é arbitrário por definição. Este é o abominável tirano que exerce sua ditadura sem oposição possível e o verdugo afetado que exerce seu poder absoluto com gestos de ópera. Apito na boca, o árbitro sopra os ventos da fatalidade do destino e confirma ou anula os gols. Cartão na mão, levanta as cores da condenação: o amarelo, que castiga o pecador e o obriga ao arrependimento, ou o vermelho, que o manda para o exílio.
Os bandeirinhas, que ajudam, mas não mandam, olham de fora. Só o árbitro entra em campo; e com toda razão se benze ao entrar, assim que surge diante da multidão que ruge. Seu trabalho consiste em se fazer odiar. Única unanimidade do futebol: todos os odeiam. É vaiado sempre, jamais é aplaudido.
Ninguém corre mais do que ele. É o único obrigado a correr o tempo todo. Este intruso que ofega sem descanso entre os vinte e dois jogadores galopa como um cavalo, e a recompensa por tanto sacrifício é a multidão que exige sua cabeça. (…)

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