Relembrando um grande livro

A história da “História de O”

quinta-feira, 17 janeiro 2013

Por Paula Taitelbaum*

Meu primeiro contato com “História de O” foi a adaptação para quadrinhos feita pelo genial Guido Crepax. Comprei a graphic novel nos anos 90, numa época em que as HQ de luxo viraram febre e que me transformei em uma fiel colecionadora do gênero.

Em “História de O” desenhada por Crepax – assim como no livro original de Pauline Réage – a personagem título, chamada simplesmente de “O”, é levada a um castelo por seu amante René. Lá, ela é submetida a uma série de práticas de dominação, incluindo as mais criativas e bizarras fantasias de seu “senhor”. A partir daí, O descobre que prazer e submissão são dois lados da mesma moeda e que carrasco e vítima não passam de cúmplices em um pacto sinistro que pode trazer prazer a todos. E isso, cá entre nós, muito antes de “50 Tons de Cinza” aparecer por aí.

A chegada no "Chateau d'O" para receber o treinamento

Anos depois de ter conhecido O e sua saga, graças aos desenhos de Crepax, assisti a um documentário incrível que contava a verdadeira história da “História de O”. Esse documentário – que agora não lembro o nome – mostra quem foi Pauline Réage, a autora do livro escrito em 1954. Durante 50 anos, ninguém soube quem era Pauline Réage, pois o nome não passava de um pseudônimo.

Até que, em 1994, uma jornalista foi em busca da verdadeira identidade da escritora e finalmente chegou a uma comportada senhora francesa de 89 anos: Anne Desclos. Anne havia trabalhado como escritora, tradutora, editora e jornalista e ficado famosa com outro pseudônimo, Dominique Aury, nome que ela usava para assinar suas críticas literárias. Como Dominique, Anne tornou-se respeitada, foi premiada e apresentou aos franceses importantes autores como Virginia Woolf e F. Scott Fitzgerald. 

Na década de 1930, Anne conheceu o escritor francês Jean Paulhan, membro da Academia Francesa e diretor da revista literária Nouvelle Revue Française (que mais tarde se tornou a prestigiosa Gallimard). Ele era casado, mas os dois tornaram-se amantes. Em 1946, Paulhan convidou Anne para ocupar o cargo de editora da Gallimard e, durante a guerra, ela participou do movimento de resistência e publicou uma antologia de poesia erótica francesa.

No documentário, Anne conta que era totalmente apaixonada por Jean Paulhan e que, apesar da relação entre os dois ter durado décadas, eles nunca conseguiram dormir juntos. Em 1954, em mais uma madrugada que passava sozinha, Anne resolveu criar uma história para o amante. Sabendo que Paulhan adorava as novelas do Marquês de Sade, ela passou a noite inteira acordada escrevendo sem parar. Na manhã seguinte, “História de O” estava concluida. Ao receber o presente, naquela mesma manhã, Paulhan não acreditou no que leu e disse a Anne que jamais imaginou que uma mulher seria capaz de escrever uma história como aquela.

Jean Paulhan editou o livro e escreveu o prefácio de “História de O”. E jamais revelou a identidade verdadeira de Pauline Réage, pseudônimo que os dois escolheram juntos. O livro tornou-se um dos romances eróticos franceses mais lidos e polêmicos do século XX (inclusive proibido durante um tempo) e a tradução inglesa vendeu mais de três milhões de exemplares.

Após a morte de Paulhan, Anne seguiu guardando seu segredo e nem mesmo sua família sabia que ela era Pauline.

Fiquei tão fascinada por essa história que passei a colecionar todos os volumes em todas as línguas que encontrei de “História de O”. Tendo, claro, o quadrinho de Guido Crepax como destaque dessa coleção, já que ele foi o meu primeiro e é totalmente fiel à história original. Sem contar que os desenhos dão um toque ainda mais erótico à obra.

Para os que nunca leram, uma boa notícia: a L&PM irá relançar a graphic novel em março de 2013. E como a capa provalvemente será diferente da lançada nos anos 80/90, vem aí mais um volume para aumentar a minha coleção. Eba!

O primeiro "História de O" da minha coleção. Um grande quadrinho, um grande livro!

* Toda semana, a Série “Relembrando um grande livro” traz um texto assinado em que grandes livros são (re)lembrados. Livros imperdíveis e inesquecíveis.

“Noites brancas” de Dostoiévski

quarta-feira, 9 janeiro 2013

Por Nanni Rios*

Não sei bem explicar o porquê, mas a música “Valsinha” de Chico Buarque sempre me remete ao livro Noites brancas, de Dostoiévski. As duas histórias não têm muito em comum além do casal apaixonado que vai para a rua viver seu sentimento, mas na falta de elementos visuais em ambos (uma música e um livro, respectivamente), criei meus próprios cenários imaginários para as duas histórias e posso garantir que os dois se parecem. E essa relação não deixou de ser um dos principais motivos que me inspirou a escrever sobre Noites brancas aqui no blog, um livro que merece ser relembrado sempre.

Na história de Dostoiévski, a jovem Nástienhka se ilude com a promessa de um homem que partiu um ano antes prometendo voltar para casar-se com ela: ao chegar no local e dia combinados para o reecontro, nada do rapaz aparecer. É neste momento de fragilidade que a vida dela se cruza com a de um jovem (o protagonista da história), que estava no lugar certo na hora certa. Em apenas quatro noites, o tímido rapaz e a misteriosa Nástienhka passam a se conhecer como velhos amigos e se apaixonam.

Na música do Chico, a história parece ser rodada ao contrário: um casal que vivia uma relação já desgastada se reapaixona e resolve contar isso para o mundo – como fazem os casais apaixonados, afinal:

E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar

Em Noites brancas, como não podia deixar de ser, algo vem atrapalhar o desenrolar romântico daquele fugaz encontro. Se o final é triste ou feliz? Recomendo ler o livro e tirar suas próprias conclusões – e isso não é uma isca barata, pois o julgamento realmente cabe a quem lê.

A L&PM publica Noites brancas na série Pocket Plus da Coleção L&PM Pocket. E para ouvir a “Valsinha”, clique aqui.

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A história dos quatro homens que fizeram o capitalismo americano

quarta-feira, 12 dezembro 2012

Por Ivan Pinheiro Machado*

Os Magnatas” é o livro brilhante de Charles R. Morris, advogado, ex-banqueiro, empresário da área da informática, articulista do Wall Street Journal e autor de livros sobre economia, finanças e história econômica dos EUA.

Este livro, escrito de forma magnífica, mereceu no Brasil a tradução impecável de Edmundo Barreiros que preservou o saboroso texto de Morris. Ele narra a saga de Andrew Carnegie (1835-1919), John D. Rockefeller (1839-1937), Jay Gould (1836-1892) e J. P. Morgan (1837-1913), os “barões ladrões” como eram chamados pelas más línguas. Eles foram os gigantes da Era de Ouro, os magnatas por trás do exuberante crescimento que fez dos EUA o país mais rico, mais criativo e mais produtivo do mundo.

Dos quatro, apenas J. P. Morgan era rico, filho de um grande banqueiro. Os outros, filhos da classe média, seriam, ao chegar na casa dos 30 anos, donos de segmentos fundamentais da economia americana. Rockefeller era dono do petróleo, Carnegie do aço, Gould era a raposa que devorava empresas através de inacreditáveis manobras na bolsa de valores. Morgan controlava o dinheiro – era o grande banqueiro, cuja assinatura no lado esquerdo dos títulos avalizava os mega empréstimos dos bancos europeus ao estado americano.

Inimigos, companheiros, rivais, concorrentes, estes desbravadores estiveram sempre no limite e muitas vezes além da lei. Toda legislação restritiva das bolsas foram criadas inspiradas nas tramóias de Jay Gould. A lei antitrust foi criada para esfacelar a Standard Oil, o monopólio de Rockfeller, em 32 empresas de petróleo. Operação aliás da qual ele saiu mais rico ainda, para morrer aos 98 anos como um dos homens mais influentes do mundo. Carnegie construiu uma imensa fortuna controlando durante décadas o negócio do aço na América, sendo várias vezes investigado por formação de cartel e até “dumping”, quando vendia aço por preços abaixo do custo de produção para destruir seus concorrentes.

Os Magnatas”, vai muito além de uma brilhante análise biográfica e psicológica destes quatro “tycoons”. É um minucioso relato político e econômico de mais de meio século de embates entre estes quatro homens que quase sempre estiveram – por força de negócios – juntos, embora se detestassem pessoalmente. Enfim, este é um livro fascinante, que conta a história fascinante de homens fascinantes, tanto pelo lado do bem, como do mal. No final das 450 páginas da edição de bolso de “Os Magnatas”, você vai compreender como se construiu, a ferro e fogo, num tempo sem lei e sem restrições, o maior país capitalista do mundo.

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As aventuras de Tom Sawyer

terça-feira, 4 dezembro 2012

Por Fernanda Scherer*

Antes de conhecer Tom Sawyer na literatura, conheci James Sawyer no seriado Lost. O personagem andava pela misteriosa ilha sempre com um livro a tiracolo e eu me perguntava se o James era inspirado naquele Sawyer da literatura. Resolvi ler o livro para tirar essa dúvida.

As aventuras de Tom Sawyer (Coleção L&PM Pocket), de Mark Twain, é um grande clássico da literatura americana. Publicado originalmente em 1876 – sempre me impressiono com obras do século passado que ainda parecem recém lançadas -, o livro traz um garoto muito esperto, aprontando mil coisas. Li pensando na infância do meu pai e dos meus avôs. Uma infância em que, no final de semana, os garotos se reuniam para nadar no lago e a falta de brinquedos industrializados era compensada por uma grande imaginação. Um tempo em que um dente de leite valia o equivalente a um carrapato vivo (troca real feita na história entre Tom e seu fiel amigo Huck Finn).

Tom Sawyer é um garoto do tipo “moleque”, com direito a noites de brincadeira no cemitério e uma tentativa de virar pirata. Mas, ao mesmo tempo, um moleque de grande coração, que tem um imenso carinho pela família e que enfrenta uma super confusão para ajudar um homem inocente.

As aventuras de Tom Sawyer nos leva de volta à infância. Talvez não a nossa infância, mas a infância simples e divertida de Tom.

Se James Sawyer, de Lost, foi inspirado no Tom? Os roteiristas nunca confirmaram a informação. Mas Tom Sawyer, com certeza, já serviu de inspiração para muitos outros livros, filmes e músicas.

Curiosidades sobre Tom Sawyer:

  • Tom Sawyer serviu de inspiração para músicas homônimas das bandas RushMindless Self Indulgence.
  • A personagem e o livro também são citados nos filmes Minority Report – A Nova Lei (pelo ator Tom Cruise), A Felicidade não se compra (pelo ator James Stewart) e A Liga Extraordinária (pelo ator Shane West).
  • Serviu de inspiração para a série de TV americana CHUCK, episódio “Chuck contra Tom Sawyer”, onde Tom Sawyer é um código secreto para desarmar uma bomba. No mesmo seriado, Tom Sawyer já foi um técnico de vídeo-game e criador de um míssil que poderia iniciar a Terceira Guerra Mundial.
  • Considerado vilão em Os Padrinhos Mágicos no episódio “Vida Na Estante”.
  • O protagonista do livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, de Umberto Eco, cita Tom Sawyer em uma de suas passagens.
  • Citado no filme Alice Upside Down, a professora Plotkins lê o livro para a turma de Alice e no final do filme dá o mesmo livro de presente a ela
  • Também citado no desenho Phineas e Ferb pelo Dr. Heinz Doofenshmirtz quando ele ouvia um CD falando a respeito de Tom Sawyer.
  • Citado no conto A Canoa, do escritor Luke T. Bergeron. Ele cria um verbo e usa no passado, Tom Sawyered.
  • Em Dogville, o livro que Thomas Edison (pai) está lendo é “The Adventures of Tom Sawyer”.
  • É citado no último episódio da 12º temporada de Os Simpsons, “Contos da Carochinha”. Na história, Tom, interpretado por Nelson Muntz foge de um casamento arranjado.
  • Em Feiticeiros de Waverly Place, Max mente para sua namorada que seu nome é Tom Sawyer, e mais referências são citadas no episódio.

No Missouri (EUA) há um monumento com as estátuas de Tom Sawyer e seu amigo Huck Finn

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Glória a vocês, balzaquianas!

terça-feira, 20 novembro 2012

Por Ivan Pinheiro Machado* 

“Balzac prestou às mulheres um serviço imenso, pois duplicou para elas a idade do amor. Curou o amor do preconceito da mocidade…”. Georges Viacaire, crítico francês, referia-se a enorme repercussão que “A mulher de trinta anos” teve quando foi lançado. Duzentos anos depois, em dezenas de línguas, “balzaquiana” é o adjetivo que designa, como diz o respeitável Dicionário Houaiss da língua portuguesa, “aquela que tem mais de 30 anos”. A maioria esmagadora daquelas milhões e milhões de pessoas que empregam a expressão nem sonham que ela vem de um livro escrito por um certo Honoré de Balzac há 180 anos atrás. Existe maior glória para um escritor?

A mulher de trinta anos” não está entre os melhores livros de Balzac. É irregular, foi escrito num período muito longo, entre dezenas de outros romances e concluído às pressas, numa verdadeira colagem de trechos esparsos. Mas mesmo assim possui grandes momentos que, por si só, justificam a fama de mais famoso de todos os 100 livros escritos por Balzac.

A belíssima marquesa Julia d’Aiglemont é a famosa mulher de 30 anos. Infeliz no casamento, renasce numa paixão extraconjugal pelo jovem Carlos Vandenesse que… bem… leia o livro. Como degustação, para ilustrar este post, leia abaixo um fragmento da obra que glorificou e eternizou as balzaquianas.

“(…) A jovem conta apenas com sua coqueteria, e acredita ter dito tudo quando tirou o vestido(…) A mulher de trinta anos pode fazer-se jovem, representar todos os papéis, até tornar-se mais bela com uma infelicidade. A jovem sabe apenas gemer. Entre as duas há a incomensurável diferença entre o previsto e o imprevisto, a força e a fraqueza. Armada de um saber obtido quase sempre ao preço de infelicidades, a mulher de trinta anos ao entregar-se, parece dar mais do que ela mesma; ao passo que a jovem, ignorante e crédula, nada sabendo, nada pode comparar nem apreciar (…).” E por aí vai… (tradução da citação de Balzac, por Paulo Neves)

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Um romance marcante

terça-feira, 13 novembro 2012

Por Paula Taitelbaum*

Antes de trabalhar na L&PM, eu já tinha uma ligação forte com essa casa. Primeiro, porque como escritora venho publicando por aqui desde 1999. Segundo, porque há alguns anos sou colaboradora de jornais e revistas – o que fazia de mim uma potencial habitante do mailing da editora. Digo isso para contar que eu costumava receber muitos dos lançamentos da L&PM. Foi assim que, um certo dia lá por novembro de 2007, cheguei em casa e encontrei mais um  embrulho em papel pardo. Ao abrir o pacote, dei de cara com um nome que nunca tinha ouvido falar na vida: Nancy Huston. Além do nome da autora, o livro recém chegado trazia a foto de uma menina em preto e branco e possuía um título bastante poético: Marcas de Nascença.

Confesso que quase nunca eu folheava o livro na hora em que ele chegava – muito porque eu sempre estava atrasada para ir ou fazer alguma coisa –, mas Marcas de Nascença foi como um imã e, ali mesmo, de pé na sala, abri na primeira página. Instanteneamente, fui sugada pela história, pelas frases que não chegavam ao fim do parágrafo e pelos espaçamentos diferentes que soavam como um poema, além do fluxo de pensamento muitas vezes sem vírgula, ponto:

Estou acordado.
É como ligar o interruptor e encher o quarto de luz.
Assim que escapo do sono, estou ligado alerta     eletrificado,     com a cabeça e o corpo funcionando perfeitamente. Tenho seis anos e sou um gênio. Esse é o primeiro pensamento do dia.
O meu cérebro preenche o mundo e o mundo preenche o meu cérebro,
eu controlo e possuo cada parcela dele.
Domingo de Ramos                 muito cedo
A bisa de visita aqui em casa
A mamãe e o papai ainda estão dormindo um domingo
ensolarado             sol           sol         sol        Rei sol
Sol           Solly       Solomon
Sou uma onda de luz                instantânea             invisível       e    todo-poderosa que se espalha pelos cantos mais sombrios do universo se a menor dificuldade

Aquelas palavras – e todas as que vieram a seguir – pareciam ser tudo o que eu queria ter escrito na vida. Não larguei mais o livro. Dividido em quatro capítulos, ele conta as histórias de quatro membros da mesma família judia que possuem uma idêntica marca de nascença em diferentes lugares do corpo. Histórias sempre narradas do ponto de vista de uma criança de seis anos e com um estilo diferentes para cada capítulo. Dessa forma, vai se desenrolando um novelo familiar que conta em primeira pessoa a vida do bisneto, pai, avó e bisavó. Tudo começa com Solomon, passando para seu pai Randall, indo para sua avó Sadie e terminando em sua bisavó Kristina. Num período que vai de 2004 até 1945.

Digo, com certeza, que Marcas de Nascença foi um dos melhores livros que já li na vida. E este ano, ele foi relançado na Coleção L&PM Pocket. Ou seja: provavelmente é fácil encontrá-lo por aí. Vá atrás!

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Operação Condor: um relato corajoso e necessário

terça-feira, 6 novembro 2012

Por Amanda Zulke*

Em mais um final de ano, como uma espécie de ritual, ganhei da minha mãe um grande livro. Conhecedora que é dos meus gostos, ela me presenteou, na virada de 2009 para 2010, com o livro Operação Condor: o sequestro dos uruguaios da L&PM Editores. Como jornalista, já admirava o trabalho e a coragem do autor, Luiz Cláudio Cunha, jornalista brasileiro dos mais valorosos; como militante de esquerda, aguardava ansiosa para ler esse que prometia ser um relato fiel e visceral de uma das tantas operações militares que esmagou os direitos humanos durante pesadas ditaduras na América do Sul.

Não me enganei. Cunha, que foi testemunha viva do sequestro de Lílian Celiberti e Universindo Diaz pelos órgãos de repressão uruguaios no Brasil, em 1978, em Porto Alegre, concebeu um dos melhores livros-reportagem dos últimos anos. À época, ele trabalhava na sucursal da revista Veja no Rio Grande do Sul e, alertado por um telefonema anônimo, foi conduzido com o fotógrafo J.B. Scalco até o apartamento em que militares uruguaios e policiais brasileiros mantinham escondido o casal. Pela primeira vez no continente, jornalistas testemunhavam a Condor em pleno vôo.

Luiz Cláudio Cunha cumpriu uma honesta e difícil missão como jornalista: contou a história do sequestro de um casal e seus dois filhos pelas forças repressoras, reconstruiu aqueles tempos duros de ditadura militar e, mais do que isso, com as reportagens conseguiu que as vidas de Diaz e de Lilian fossem poupadas. São os dois únicos casos conhecidos de pessoas sequestradas na Operação Condor que ficaram vivas.

Para quem, como eu, não viveu a escuridão da ditadura, mas acredita na máxima de que para entender o presente é preciso reconhecer o passado, Operação Condor é um livro necessário. Uma obra-prima que revela em detalhes a face cruel de uma época, onde ter voz era permitido apenas a quem tinha poder. Em 2008, o fatídico seqüestro completou 30 anos. Universindo Diaz morreu de câncer em setembro de 2012. No mesmo mês, Cunha foi convidado pela presidenta Dilma Roussef a integrar a Comissão Nacional da Verdade. E a luta para que o país possa reparar erros históricos continua…

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Os grandes mangás

terça-feira, 23 outubro 2012

Por Marina Ferreira* 

A primeira vez que eu ouvi falar de desenhos japoneses (os animes) foi quando eu era criança. Devia ter uns 6 ou 7 anos de idade. Uma amiga me convidou para brincar de Cavaleiros do Zodíaco – e eu lá nem sabia o que eram estes cavaleiros, mas resolvi brincar mesmo assim. Apesar de não entender bulhufas da brincadeira, fiquei curiosa. Decidi assistir ao desenho, que passava na (agora extinta) Rede Manchete.

Foi amor à primeira vista. Um amor que cresceu e se expandiu nos anos que se seguiram, apesar da recessão de animes e mangás que o Brasil sofreu no final da década de 90.

Uma agradável surpresa foi descobrir que a L&PM pretendia publicar seus próprios mangás. A minha paixão, que havia diminuído de intensidade nos últimos anos, voltou a crescer à medida que eu assistia o processo de produção dos livrinhos, a confusão com a leitura invertida, a transformação dos símbolos nipônicos em palavras que eu podia entender.

Dos títulos lançados, o que mais gostei foi o Solanin de Inio Asano. O mangá, publicado em dois volumes, conta a história do casal de namorados Meiko e Tanada, que decidem largar a segurança de uma vida estável, mas aborrecida para correr atrás de um sonho. Embora aconteça no Japão, os conflitos apresentados em Solanin são universais; qualquer pessoa que um dia se sentiu sem rumo e pensou em arriscar tudo por um sonho poderá se enxergar entre seus personagens, partilhando de seus sorrisos e suas lágrimas.

O belo e limpo traço de Asano conta uma história realista, pungente e surpreendentemente humana. É por isso que, para mim, Solanin pode ser considerado um grande livro, disfarçado de quadrinho, capaz de agradar até aqueles que nunca quiseram saber dos tais dos Cavaleiros do Zodíaco…

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Um retrato da nossa alma

terça-feira, 16 outubro 2012

Por Paula Taitelbaum*

Quantos anos eu tinha? Dezessete? Dezoito? Já não tenho mais certeza… Só lembro que entrei em um sebo de Porto Alegre e comprei duas edições muito antigas, puídas, em que as palavras ainda eram escritas com “ph”, ambas assinadas por Oscar Wilde: O retrato de Dorian Gray e O fantasma de Canterwille. Era uma época em que tudo o que era usado e velho me fascinava. As roupas, os móveis, os livros. Passados mais de vinte anos, sigo sendo um pouco assim, atraída pelo que tem jeito de passado. Infelizmente, a rinite já não me faz suportar o cheiro de mofo que vem dos sebos. Mas também não é nada que um bom antialérgico não cure…

Mas voltemos ao que interessa. Cheguei em casa com meu frágil livro de páginas titubeantes e mergulhei afoita na vida do belo Dorian, do pintor Basil, do cínico Lorde Henry e de todos e de tudo que a exuberante imaginação de Oscar Wilde foi capaz de criar. E mesmo que eu não tenha percebido na época a releitura de Wilde para o mito de Fausto – que vende a alma ao diabo em troca dos prazeres do mundo – eu me vi totalmente envolvida com a história do belo Dorian em meio às intrigas da sociedade inglesa do século XIX. 

O retrato de Dorian Gray mostra como a paixão é capaz de capturar a alma e como a vaidade é responsável por criar uma  prisão. Há algo de fantástico e sobrenatural nessa história. Mas também há muito de real em sua metáfora. E diálogos primorosos que chegam a arrepiar de tão espetaculares. “Quando o homem trata a vida com arte, o cérebro é o próprio coração” diz lá pelas tantas Lorde Henry. “Eu não quero saber de nada. Gosto de escândalos dos outros, mas escândalos meus não me interessam, pois não possuem o encanto da novidade.” fala Dorian Gray quando Basil pergunta se é verdade o que andam dizendo sobre ele.

O final do livro, lindo, repleto de tensão, é um dos mais incríveis que já li. E talvez a moral que reste seja a de que, como diria o próprio Dorian Gray, “dentro de nós, todos temos o céu e o inferno.”. Já a pergunta que paira no ar é: “Se nossa alma tivesse rosto, como ele seria?”

Sempre imaginei que a beleza de Dorian Gray deveria ser como a de Lord Byron. Mas cada um que imagine seu próprio Dorian

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“A trégua” de Mario Benedetti

terça-feira, 9 outubro 2012

Por Nanni Rios*

Há quem olhe para a edição de bolso de A trégua, do uruguaio Mario Benedetti, e duvide de sua grandeza: são apenas 160 páginas escritas em forma de diário, com espaçamento maior aqui e ali para dar o intervalo entre os dias. Mas como tamanho não é documento, ele merece uma chance: este pequeno livro carrega uma das histórias mais emocionantes que já li. E isso sim faz dele um grande livro!

Quando me deram A trégua para ler, eu sequer conhecia Mario Benedetti. Também não me explicaram o porquê do título do livro. Mas confiei na indicação e permiti que Martín Santomé se apresentasse. Ele não é um personagem curioso, doidão ou exótico – tanto que se eu passasse por ele na rua, provavelmente não o notaria. Mas ao descrever este Martín Santomé em primeira pessoa e em tom confessional, como se faz a um diário, Benedetti fala sobre solidão de um ponto de vista que é devastador para quem lê: ele fala de dentro do vazio. E ao fazer isso, ele transporta o leitor para dentro da história – e, a partir daí, não é mais possível largar o livro.

Santomé tem 49 anos e é um homem só. Viúvo, coube a ele a educação dos três filhos, Esteban, Jaime e Blanca – dos quais sempre se sentiu distante. O emprego burocrático numa repartição comercial esmaga seus dias e ele não percebe – ou não admite. Até que aparece em sua vida a jovem Laura Avellaneda, que parece ser o que faltava para dar uma trégua na solidão e espantá-la para longe. Com Avellaneda, ele se sente capaz de viver infinitamente, de se renovar, zerar o contador e começar hoje mesmo a ser feliz. Os mais espertos já devem ter identificado: o nome disso é amor. A trégua É o amor.

Bom, não vou contar aqui o que acontece após o encontro de Santomé e Avellaneda para não estragar o desfecho surpreendente – e cruel, diga-se de passagem – da história. Mas uma coisa eu garanto: depois do redemoinho de emoções compartilhadas – com acesso irrestrito aos sentimentos de Santomé por meio de seu diário – não há como voltar incólume. Benedetti nos nega a confortável posição de simples espectador e transforma a leitura de “A trégua” numa experiência quase pessoal, algo como “mexeu com Santomé, mexeu comigo”.

Ao terminar de ler, parecia que eu tinha acabado de presenciar uma tragédia e tinha visto o culpado fugir. Mas o culpado, neste caso, era o destino, aquele que tudo pode, impiedoso e frio. E para ele, não há trégua.

* Toda semana, a Série “Relembrando um grande livro” traz um texto assinado em que grandes livros são (re)lembrados. Livros imperdíveis e inesquecíveis.