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O Santo Antônio de Fernando Pessoa

terça-feira, 13 junho 2017

Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888, às 15h20min, no Largo de São Carlos e Lisboa. Era Dia de Santo Antônio e, coincidência ou não, sua mãe escolheu uma alcunha bem parecida com o nome original do santo: Antônio Fernando de Bulhões. No site português MultiPessoa, que divulga a obra do escritor e oferece material didático e de pesquisa, há um poema chamado “Santo Antonio”. Segundo consta, este é um dos poemas que estava dentro da arca em que Pessoa guardava a produção literária que ainda não havia saído em livro.

O pequeno Fernando Pessoa no colo da mãe, Maria Magdalena

SANTO ANTÓNIO

Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir…
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João…
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante … Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera…
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? …
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?

Na Coleção L&PM Pocket, há a série Fernando Pessoa, com sete livros do mestre português.

Lovecraft ensina a pronunciar “Cthulhu”

quinta-feira, 1 junho 2017

Acaba de chegar à Coleção L&PM Pocket, O chamado de Cthulhu e outro contos, de H. P. Lovecraft. E bastou chegar pro pessoal começar a perguntar: mas, afinal, como se pronuncia essa palavra alienígena do título? Cutulo? Chulhu? Ctulho? Ó céus… Como pedir esse livro na livraria? Calma! Não é fácil mesmo.

O próprio Lovecraft não tinha uma resposta definitiva a respeito. Afinal, é um nome criado em um idioma horripilantemente interplanetário.

Em uma carta que ele enviou a um certo amigo (que questionara sobre como ele deveria dizer Cthulhu), Lovecraft escreveu:

“O nome da entidade infernal foi inventado por seres cujos órgãos vocais não eram como os do homem, portanto, não tem relação com o equipamento de fala humana. As sílabas foram determinadas por um equipamento fisiológico completamente diferente do nosso, portanto nunca poderia ser proferido perfeitamente por gargantas humanas… O som real — o mais próximo dele que podem chegar os órgãos humanos de pronunciá-lo ou a caligrafia humana de reproduzi-lo — seria algo como Khlûl’-hloo, sendo a primeira sílaba muito gutural e viscosa.”

Entendeu alguma coisa? Não né? Digamos que você terá que grunhir, ladrar ou tossir para pronunciar algo como “Cluh-Luh” com a ponta da língua firmemente grudada no céu da boca. No Youtube há um vídeo bem engraçado que tenta ensinar a pronúncia aos leitores a partir da descrição de Lovecraft. Vale tentar:

O conto O chamado de Cthulhu foi escrito por Lovecraft em 1926 e deu origem aos chamados “Mitos de Cthulhu”, denominação sob a qual parte de sua obra foi reunida depois que o escritor morreu. Ah e pra facilitar a gente prefere dizer “Ctulu”. Assim bem simples.

O_chamado_de_Cthulhu

Divulgado primeiro cartaz do filme “Assassinato no Expresso do Oriente”

quarta-feira, 31 maio 2017

Nesta quarta-feira, 31 de maio, foi divulgado o primeiro cartaz oficial de “Assassinato no Expresso do Oriente”, novo filme baseado na obra de Agatha Christie.

Chamado de “teaser poster”, ele precede a divulgação do trailer que será divulgado na quinta-feira, 01 de junho.

A L&PM publica “Assassinato no Expresso do Oriente” em diferentes formatos.

Assassinato no expresso oriente poster primeiro
Também foi divulgada uma nova foto do poderoso elenco do filme que tem a direção de Kenneth Branagh que também interpreta o detetive Hercule Poirot.

Assassinato no expresso oriente elenco

A metamorfose da cabeça de Kafka

quarta-feira, 31 maio 2017

Uma enorme cabeça de Franz Kafka atrai a atenção dos que passam em frente ao centro comercial Quadrio em Praga. E não é uma cabeça qualquer. Espelhada e com 11 metros de altura, ela está sempre em movimento, se desmanchando e se formando novamente. Ou seja, em constante metamorfose.

A  escultura, de autoria do artista David Čierny, é uma cabeça mecânica rotativa composta por 42 partes feitas com chapas de aço inxodável que pesam 24 toneladas.

A L&PM publica Kafka em livros impressos e digitais.

Historiadora afirma que foto de Machado de Assis com a Princesa Isabel é fake

segunda-feira, 29 maio 2017

MISSA 2

Há dois anos atrás, em maio de 2015, o jornal Folha de S. Paulo publicou uma matéria intitulada “Onde está Machado” que trazia uma foto feita no dia 17 de maio de 1888, no Rio de Janeiro, quatro dias depois da assinatura da Lei Áurea.

O motivo da matéria era que pesquisadores do portal Brasiliana Fotográfica haviam identificado a presença de Machado de Assis na foto, perto da Princesa Isabel.

Na época, alguns estudiosos da documentação machadiana acreditaram se tratar mesmo do escritor na foto.

Mas agora, passados dois anos, a mesma Folha de S. Paulo traz um texto em que a historiadora Lilia Scharwcz afirma que a presença de Machado é uma montagem feita na época.

Reproduzimos aqui parte do texto da Folha:

Descoberta e anunciada com alarde em 2015, a imagem que mostra Machado de Assis na missa campal pela abolição da escravatura, em 1888, é uma montagem, diz a historiadora Lilia Moritz Schwarcz. Para ela, a cabeça do autor foi colocada ali artificialmente. “Era uma técnica comum na época”, diz, destacando que as cabeças das personalidades presentes estão encaixadas de forma “artificial” nos dorsos, e que há desproporção entre várias figuras. A foto não significa que ele não estivesse lá (o fotógrafo pode tê-la manipulado por achar que não saiu boa), mas ela não serve como prova histórica. Nos jornais da época, por exemplo, a presença do escritor não é mencionada.

A L&PM publica mais de 20 livros com obras de Machado de Assis.

Há 120 anos, Drácula saía do caixão e chegava às livraria

sexta-feira, 26 maio 2017

O irlandês Bram Stoker já tinha outros livros publicados quando, em 26 de maio de 1897, lançou o livro que o faria entrar para a ala dos escritores mais populares do planeta: Drácula. Foram sete anos de pesquisa até que a obra ficasse totalmente pronta. A partir de Drácula, os vampiros passaram a ser tema de peças e filmes que parecem nunca se esgotar. Drácula, a história do sedutor conde que vive na Transilvânia e alimenta-se exclusivamente de sangue, é um romance epistolar, contado através de cartas, trechos de diários e registros de bordo. Uma das passagens mais emblemáticas do livro está no diário da heroína, Mina Murray:

draculaA lua cheia resplendia, encoberta por densas nuvens escuras que mergulhavam toda a cena em um diorama fugaz de luz e sombra enquanto atravessavam o céu. Por um ou dois instantes eu não pude ver nada, uma vez que a sombra de uma nuvem obscureceu a Igreja de St. Mary e todo o cenário ao redor. Então, à medida que a nuvem passava eu via as ruínas da abadia revelarem-se, e à medida que um estreito filete de luz afiado como a lâmina de uma espada se deslocava, a igreja e o cemitério tornavam-se cada vez mais visíveis. Qualquer que fosse a minha expectativa, ela não foi frustrada, pois lá, em nosso banco favorito, a luz prateada da lua derramava-se por sobre uma figura reclinada, alva como a neve. A chegada da nuvem foi súbita demais para que eu pudesse ver muita coisa, pois a sombra abateu-se sobre a luz quase que de imediato, mas tive a impressão de que um vulto obscuro estava de pé atrás do assento onde a figura branca reluzia, inclinando-se sobre ela. O que era aquilo, se homem ou fera, eu não saberia dizer.

Com um texto destes, não é difícil entender porque Drácula continua sendo sucesso depois de mais de cem anos de sua primeira publicação.

A primeira edição de “Drácula” e os manuscritos de Bram Stoker estão no “Writers Museum” em Dublin

Apesar de não ter se tornado um best-seller imediato, Drácula foi aplaudido pela crítica da época e até Sir Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, escreveu uma carta a Bram Stoker para elogiar seu romance.

Dois cortados e a conta

quarta-feira, 24 maio 2017

24 de maio de 2017: Bob Dylan chega aos 76 anos. Bob Dylan declaradamente influenciado por Arthur RimbaudThoreauBaudelaireJack Kerouac. Bob Dylan fã e amigo de Allen Ginsberg e amante confesso da literatura de Joseph ConradFranz KafkaMark TwainJohn SteinbeckLawrence FerlinghettiWilliam Shakespeare e até Sun Tzu. Bob Dylan que é L&PM: Lyric, Poet, Master.

Para comemorar seu aniversário, (re)publicamos aqui um texto em sua homenagem que também tem tudo a ver com o dia de hoje, já que 24 de maio é o Dia Nacional do Café.

Para ler ao som de “One more cup of coffee“, de Bob Dylan

Por Paula Taitelbaum*

A garota moída de véspera aguarda mais um grão de amor expresso. O professor amargo tenta manter-se acordado sobre o jornal pingado na penumbra de um canto. A garçonete passada queima seu dedo na lágrima fervente da máquina estilo locomotiva à vapor. A senhora fraca deixa um pouco do seu batom na xícara branca de louça barata.

A secretária doce percebe o resto de ai que cai de uma boca espumante. O executivo frio sente o líquido escuro escorrendo por suas veias abertas. A vendedora vazia oferece seu corpo de bandeja enquanto derrama um tanto de suas lamentações. O ator aguado sente a fumaça entrar por suas narinas até experimentar a última gota de fala decorada.

O aposentado leitoso faz tremer o pires gasto que um dia foi do gato. A estudante descafeinada levanta a mão num pedido mirrado e distante. O homem aromatizado finge não prestar atenção na mulher que lambe o dedo lambuzado de chantilly. O poeta denso ignora dois dedos de prosa e rabisca versos imaginários num guardanapo estampado de rodelas marrons.

A moça extra-forte adoça o olhar mexendo suas ideias em movimentos circulares. O desempregado duplo deixa escorrer o resto da auto-estima goela abaixo. A amiga pela metade pensa que as relações não passam de uma meia-taça. A viúva pura assopra suas lembranças para sorvê-las em um grande gole.

O garçom torrado abraça a vassoura por trás do balcão descascado. A filha embebida em restrições pede à mãe uma porção de sonhos frescos. A adolescente encorpada aperta as coxas quentes querendo servir um sanduíche de si mesma. O músico solúvel em críticas esconde as olheiras por trás dos óculos de lentes mal dormidas.

O casal morno alimenta-se de silêncio mastigando um pão adormecido. A esposa granulada acaricia a baguette num requentado pedido de perdão. A velha triturada estende a mão suplicando uma migalha de atenção. A virgem amanteigada deixa sua calda escorrer sem que ninguém perceba onde ela vai parar.

O desquitado italiano hesita antes de pedir um bem-casado. O turista orgânico sorve um sabor estranho enquanto tenta entender a língua que o cerca. A amante cremosa procura o bilhete da sorte entre os restos da mesa ao lado. O garoto cigano de cabelos encaracolados e brinco de ouro lê a sorte na borra decantada antes de partir para o vale lá embaixo.

É uma manhã como outra qualquer no Dylan’s Café.

* Paula Taitelbaum é escritora, autora de Ménage à TroisPorno Pop PocketPalavra vai, palavra vem e coordenadora do Núcleo de Comunicação L&PM.

Peanuts no aniversário de Bob Dylan

quarta-feira, 24 maio 2017

Em maio de 1971, uma tirinha de Peanuts mostrava Charlie Brown e Linus conversando sobre Bob Dylan.

“Bob Dylan fará trinta anos este mês” diz Linus. Ao que Charlie Brown responde “Essa é a coisa mais deprimente que eu já ouvi”.

Charles Schulz, que provavelmente era fã de Dylan, compartilhou um sentimento que deve ter sido o de muitos na época: o de ver Dylan, “ídolo da juventude”, sair da casa dos 20 anos.

Clique sobre a imagem para ampliá-la

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Eis que nesta quarta-feira, 24 de maio, dia do aniversário de 76 anos de Dylan, o site “All Dylan” fez uma versão dessa tirinha. “Bob Dylan fara 76 anos este mês” diz Linus. “Essa é a coisa mais fantástica que já ouvi” responde Charlie Brown sorridente. Feliz aniversário Dylan!

PEANUTS BOB DYLAN 76

A L&PM tem uma série inteira dedicada a Peanuts.

Scliar a quatro vozes (e que vozes!)

terça-feira, 23 maio 2017

Na próxima sexta-feira, 26 de maio, às 19:30, os escritores Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura, Antônio Torres e Ignácio de Loyola Brandão estarão reunidos no Teatro da Santa Casa em Porto Alegre para debater a obra de Moacyr Scliar e os desafios de escrever nos tempos da ditadura.

Além do bate-papo com os escritores, haverá também a exibição do documentário “Caminhos de Scliar”, de Claudia Dreyer.

Scliar evento 26 maio

Em 2010, a L&PM Editores gravou uma longa entrevista com Scliar que está à disposição na L&PM WebTV. Aqui, um pequeno trecho para você sentir o clima do papo com o saudoso escritor gaúcho:

Gostou e quer assistir ao vídeo completo que tem 41 minutos? Clique aqui.

Willem Dafoe será Van Gogh

segunda-feira, 22 maio 2017

Em um primeiro momento, a notícia de que Willem Dafoe interpretará Van Gogh causou um certo estranhamento por aqui. Afinal, o ator norte-americano tem 61 anos, enquanto Van Gogh morreu com apenas 37. Mas analisando as imagens abaixo a escolha não parece tão surreal. Sem contar que Dafoe sabe como ninguém interpretar personagens desequilibrados.

Van Gogh Defoe

O longa-metragem, que terá direção de Julian Schnabel se chamará ‘At eternity’s gate’, título de um dos últimos quadros de Van Gogh. “É um filme sobre um pintor e sua relação até o infinito”, disse diretor premiado por ‘O escafandro e a borboleta’.

“É narrado por um pintor. Contém o que me pareceram momentos essenciais de sua vida. Não é a história oficial, é a minha versão”, completou Schnabel.

O filme se concentra no período que Van Gogh passou em Arles, sul da França, e em Auvers-sur-Oise, perto de Paris, onde morreu. Ainda não há previsão de estreia.

***

Sobre Van Gogh, a L&PM publica, além de sua biografia, o livro Cartas a Théo em pocket, com a correspondência entre o pintor e seu irmão; o grande livro Cartas a Theo e outros documentos sobre a vida de Van Gogh e a HQ Vincent.